
O Inimigo Mora ao Lado
Após uma noite turbulenta dormindo de conchinha com Kacchan, Izuku acordou meio tarde para seu costume na manhã seguinte devido à exaustão que sentia.
Uma mão forte balançava delicadamente o seu ombro enquanto uma voz familiar chamava o seu nome de volta pro mundo real.
- Hmm… Kacchan? - Indagou ainda grogue de sono.
O loiro suspirou preocupado.
- Não vai levantar? São dez da manhã.
Checando o horário em seu celular ao lado para garantir, o sardento enterrou o rosto no travesseiro e grunhiu descontente.
Bakugou sentou ao seu lado na cama e começou a acariciar suas costas.
- Não está planejando se esconder no quarto o dia inteiro, certo? - Indagou ele.
Izuku virou o rosto o suficiente para que estivesse olhando Kacchan de relance.
- E o que mais eu posso fazer? As chances de encontrar meu pai num país inteiro já eram baixas, agora que eu sei que ele está por aí, não quero arriscar vê-lo de novo.
- Então vai se esconder até o dia do casamento? - Bakugou repreendeu com voz suave.
O esverdeado se calou.
- Venha, não vou te deixar mofar na cama. - Katsuki chamou ao se levantar.
- Está bem… - Izuku suspirou e se sentou de mau grado, checando as notificações no celular e arregalou os olhos.
- O que foi? - Bakugou perguntou receoso.
- É a minha mãe… ela tentou me ligar várias vezes ontem à noite.
Ambos pausaram com uma única coisa em mente.
- Não vai responder agora, vai? - Indagou o íncubo.
- É a minha mãe… se eu não responder, ela pode se preocupar.
Katsuki abriu a boca para raciocinar, mas viu que Izuku tinha razão.
- Está bem… Vou estar na sala ao lado; venha me ver quando terminar, certo?
- Claro. - O sardento assentiu em concordância e mandou uma mensagem para Inko no que Kacchan saía do quarto.
Oi, mãe! Desculpe a demora para responder, tive uma noite difícil…
Pouco após enviar, seu celular já estava tocando com uma ligação. O esverdeado se assustou com o som repentino e atendeu relutante.
- A-alô…?
- Izuku! Tentei te ligar ontem o dia todo! Onde você estava?! - A voz de Inko soava mais alta do que o costume, obrigando seu filho a afastar o telefone do ouvido.
- Erm… dormindo. - Respondeu acanhado.
Inko suspirou do outro lado da linha.
- Você tem ideia do quanto me deixou preocupada? Com você em outro país, como posso saber se nada perigoso aconteceu?!
- Desculpe, eu… tive uma noite difícil… - Repetiu o esverdeado.
- Eu fiquei sabendo… seu pai entrou em contato comigo.
- Eu imaginei que tivesse…
- Olha, Izuku, sei que nosso divórcio ainda é difícil para você, mas o Hisashi tem o direito de sair com quem ele quiser.
Silêncio…
- Querido…?
- Então foi isso o que ele te contou… - Disse o esverdeado com decepção na voz.
- Como assim?
Izuku riu sarcástico; não queria que sua mãe ficasse sabendo, ainda mais daquela forma, mas Hisashi já havia começado e ela ainda merecia saber.
- Não acho que sair com prostitutas seja “seguir em frente”.
Houve um silêncio perplexo do outro lado da linha.
- Você está brincando, não é? - Inko riu, mas ainda era possível ouvir em sua voz que estava dizendo aquilo pois era o que queria acreditar.
Izuku deu de ombros.
- Posso não ser muito bom em inglês, mas entendi bem o que aquela mulher que estava com ele quis dizer.
Inko parecia estar tentando digerir a informação até voltar a falar.
- De qualquer forma, você não pode escolher com quem nós dois saímos. Eu e o Hisashi estamos divorciados e podemos muito bem-!
- Mãe… ele estava te traindo. - Izuku interrompeu-a com voz embargada.
- Como pode saber? Só porque seu pai estava com uma… bem, você sabe!
- Porque eu o perguntei há quanto tempo vinha fazendo aquilo e ele não soube mentir. - Disse com os lábios trêmulos.
Sua mãe não queria acreditar naquela história, era absurda demais para ser verdade, mas podia ouvir na voz do filho que estava sendo sincero. Conhecia-o desde que nasceu e sabia que nunca mentiu.
- Izuku… isso é…
- Desculpe te contar desta forma. - Soluçou.
Foi outro momento até Inko voltar a se pronunciar.
- A-a culpa não é sua, querido. - Sua voz, estranhamente, não soava como se estivesse chorando.
- Você vai ficar bem? - Indagou seu filho.
- Eu vou ficar bem, querido, eu só… - Não conseguiu terminar a frase, Izuku já ouvia fungadas e soluços do outro lado da linha.
- Mãe…
- E-eu… preciso ficar sozinha um pouco. - Com isso, Inko desligou.
O esverdeado não perdeu tempo, procurou o contato de Yagi em seu telefone e o ligou, cruzando os dedos para que atendesse.
- Alô?
Izuku quase suspirou aliviado ao ouvir a voz do mais velho.
- Oi, Yagi… - Pausou para tentar conter as lágrimas.
- Jovem Izuku…? Está chorando?
- Eu só… preciso que vá ver a minha mãe.
- Jovem, está meio tarde para visitar a sua mãe. O que aconteceu?
- Talvez ela possa te explicar… mas ela não pode ficar sozinha agora… Por favor.
Um momento de silêncio se fez enquanto Yagi ponderava sobre se deveria obedecer ou não.
- Está bem, estou indo.
- Obrigado, Yagi.
- Não por isso. Sabe o quanto eu aprecio a Inko e você, não é? - Izuku ouvia o sorriso em sua voz.
- Claro… Não deixe ela esperar muito.
- Até mais, jovem.
Encerrando a ligação, o esverdeado botou o celular de lado e enterrou o rosto nas mãos, se pondo a chorar. Realmente não precisava ser lembrado daquilo nem ser obrigado a contar a verdade para sua mãe e piorar a situação; o Hisashi tornou aquela viagem entre amigos um pesadelo.
Uma batida repentina à porta tirou-o de seus devaneios; Izuku exalou surpreso ao se virar em direção ao som. De uma fresta, pôde ver o rosto preocupado de Kacchan fitando-o na distância.
Se convidando para entrar, o íncubo foi até sua alma gêmea às pressas, sentando ao seu lado na cama e afagando suas costas.
Após dar um tempo para o companheiro derramar as lágrimas, Katsuki suspirou. Não faria perguntas desnecessárias, por isso partiu para outra abordagem.
- Venha. - Disse pegando sua mão e se levantando.
- O quê-? - Izuku indagou confuso.
- Não vou te deixar se lamentando aqui.
- Kacchan, eu preciso de um tempo-
- Não vou te dar tempo para se lembrar disso e continuar sofrendo.
O esverdeado pausou, se levantando junto dele logo após ainda de mãos dadas e enterrou o rosto em seu peito.
- E-eu não quero arriscar encontrar-
- Eu sei, por isso não vamos sair do hotel. - Bakugou interrompeu-o.
Izuku envolveu a cintura do íncubo com os braços, este recebeu-o de bom grado.
- Obrigado. - Sussurrou.
Bakugou afagou seus cachos verdes antes de se pronunciar novamente.
- Vá se arrumar.
O esverdeado assentiu e obedeceu, buscando uma nova muda de roupas na mala de viagem e se trocou debaixo do olhar atento de seu companheiro; após uma ida rápida ao banheiro, Katsuki guiou-o para fora do quarto e foram prontamente recebidos pelos amigos que aguardavam ansiosos na sala. Todos pareciam prender a respiração ao avistar o sardento.
- Pessoal… - Izuku murmurou confuso.
- Mido-
Antes que Yaoyorozu pudesse completar a frase, Ochako, Mina e Denki correram até ele, abraçando-o e falando todos ao mesmo tempo, ignorando completamente a presença de Bakugou ao seu lado.
- Já deu, né?! Dêem espaço a ele! - O loiro exclamou revoltado.
Seus amigos obedeceram e se afastaram devagar, todos os olhos fixados em Midoriya atentamente.
- Há quanto tempo estão aqui? - Indagou Izuku.
O grupo se calou por um breve momento.
- O suficiente… - Momo se pronunciou. - Nos sentimos mal por estar enfrentando essa situação… se não tivesse vindo por mim e Kyouka, nada disso teria acontecido.
- N-não se preocupem! A culpa não é sua. - O esverdeado garantiu de prontidão.
- Mesmo assim, vamos entender se não estiver se sentindo bem para a cerimônia. Não vamos te forçar a ir, se não quiser. - Completou a morena.
- Não… Não posso deixar que isso atrapalhe. Vocês são minhas amigas e eu vou estar lá por vocês. - O sardento disse determinado.
Seus amigos sorriram cansados.
- Isso não é só sobre nós, Midoriya, você tem o direito de faltar, se não estiver se sentindo bem. Depois do que aconteceu com você, vamos entender. Não podemos te forçar e nem você. - Adicionou Jirou.
Seus olhos verdes marejados fitaram a dupla de noivas e seus outros amigos que sorriam em concordância, foi um momento até se pronunciar novamente.
- Pessoal…
- Mas não pense que vamos te deixar na mão! - Uraraka disse determinada com as mãos na cintura.
- Isso! Organizamos um dia inteiro para te animar. - Mina assentiu ao enganchar o braço no de Midoriya. - Hoje não vamos deixar que se lembre desse fiasco, vamos só nos divertir! Certo? - Disse ao piscar um olho dourado em sua direção.
Izuku fungou e esfregou os olhos molhados de lágrimas para se acalmar.
- Obrigado. - Falou com voz trêmula.
- Não tem porquê, Midoriya, somos seus amigos e estamos aqui por você. - Kirishima sorriu.
- Sim, ficamos preocupados… - Uraraka concordou. - Quer ir almoçar? Afinal você acordou tarde.
O esverdeado fungou novamente e assentiu.
- Seria bom. - Sorriu acanhado.
Passaram o dia no hotel; uma viagem feita para comemorar o casamento de Yaoyorozu e Jirou de repente desviou o rumo para tentar animar Midoriya. No almoço, a atenção de todos caiu sobre si, brincando e contando piadas entre amigos; logo após, voltaram pro apartamento que dividia com Katsuki para jogar e conversar. De repente o esverdeado já não se sentia mais tão péssimo, estava grato por ter amigos como os seus.
Ao cair da noite, Momo e Kyouka voltaram para casa e todos os outros foram para seus respectivos quartos de hotel, deixando Izuku e Katsuki sozinhos. Aproveitaram a privacidade para assistir um pouco de TV, apesar do sardento não entender absolutamente tudo o que se passava na tela, mas o momento fez valer a pena.
Ambos se aconchegavam no sofá, quase se entregando ao sono em meio à sala mal iluminada; foi um longo momento debaixo de um silêncio confortável, aproveitando a companhia do outro até Bakugou abrir a boca.
- Como está se sentindo? - Indagou com voz sonolenta.
Izuku piscou para espantar o sono e virou o rosto em sua direção com um leve sorriso.
- Um pouco melhor, graças ao Kacchan e os outros.
O íncubo sorriu à informação.
- Que bom… não vou deixar que tirem sua felicidade de você, não de novo. - Se lamentou ao afagar o corpo do menor.
- Achei que já não estivesse mais se culpando por isso… - Izuku repreendeu.
- Não importa quantas vezes me perdoe, nada vai tirar essa culpa de mim… Você merece melhor e nunca vou me redimir o suficiente, mesmo que eu passe o resto da sua vida te tratando como merece.
O esverdeado suspirou com um sorriso cansado.
- Kacchan… Não tem mesmo nada que eu possa fazer para mudar sua ideia sobre isso, não é?
- Não. - O íncubo respondeu plenamente com um sorriso.
Izuku soltou um riso divertido do fundo da garganta.
- Como você é teimoso.
- Mas você me ama, mesmo assim. - Disse ao acariciar um cacho verde atrás da orelha.
- Tem razão… amo.
Ambos se aproximaram para um beijo demorado e se entreolharam com carinho ao se afastar.
- Com todas as imperfeições. - Complementou o esverdeado num sussurro.
- Eu também te amo, Zuzu. - O apelido fez o sardento corar. - Até diria o mesmo, se você tivesse alguma imperfeição.
Izuku entreabriu a boca sem saber o que responder; queria contrariar, sentia que não era suficiente comparado ao seu companheiro, mas o elogio deixou-o acanhado o suficiente para perder a voz. Apenas virou o rosto para esconder a vermelhidão em suas bochechas.
Bakugou segurou seu queixo e forçou-o a olhar de volta para si com os olhos carmesim vidrados em seus lábios carnudos. Se aproximou para mais um beijo, mas uma ligação no celular de Izuku interrompeu seus planos.
O íncubo observou impaciente enquanto seu namorado se esticava em direção à mesa de centro para alcançar o telefone e checar o contato na tela, esticando o pescoço para bisbilhotar e ambos constataram que era um número desconhecido.
Antes que o esverdeado tivesse tempo para reagir de qualquer forma, Katsuki arrancou o aparelho de suas mãos e atendeu por ele.
- Alô. - Saudou de forma ríspida.
Uma pausa se fez do outro lado antes que obtivesse resposta.
- Quem é?
- Eu que pergunto, é você quem está ligando para importunar meu namorado. - Bakugou disse bruscamente, reconhecendo a voz de Hisashi.
- Hmpf, então eu tinha razão sobre isso… - Comentou não impressionado.
- O que você quer?! - O loiro exclamou ao telefone.
- Quero falar com meu filho, ele está? - Hisashi soava indiferente, de certa forma.
- Ele já ouviu o suficiente de você. Se quer continuar suas ameaças, fale comigo. - Desafiou o íncubo.
De repente, os olhos do esverdeado arregalaram ao encaixe das peças.
- Hora, não estou aqui para ameaçar ninguém, só quero saber porquê o Izuku foi fofocar com a Inko sobre mim. - Hisashi soava contrariado.
Bakugou riu debochado.
- Não foi você quem fofocou com ela primeiro? Ele só contou a verdade, ao contrário de você.
Uma pausa se fez do outro lado da linha.
- Isso não importa, ela está me ligando o dia inteiro para gritar no meu ouvido, tive até que bloquear o número!
- Porque você obrigou o Izuku a contar a verdade para ela; talvez devesse ter pensado nisso antes de mentir para tentar se passar por santo. Foi você quem causou isso a você mesmo, agora lide com as consequências dos seus atos!
Após gritar aquela última parte, Katsuki desligou na cara de Hisashi e se adiantou em bloquear o número, exalando impaciente à tela do telefone; logo se virou para o esverdeado que chorava ao lado e sua expressão suavizou.
Entregando o celular de volta nas mãos de Izuku, Katsuki fitou seus olhos esmeralda diretamente, segurando seu rosto sardento e falando com cuidado.
- Quero que mantenha esse número bloqueado, está bem…? Vamos esquecer essa história.
O esverdeado assentiu devagar, então Bakugou lhe deu um selinho nos lábios e depois beijou sua testa com carinho, abraçando-o em seguida para consolá-lo.
Izuku enterrou o rosto em seu pescoço e soluçou nos braços do companheiro, ficaram assim por um momento até o mais baixo se acalmar o suficiente para irem se deitar.
Na calada da noite, quando Bakugou teve certeza de que a alma gêmea estava em sono profundo, buscou o celular do pequeno e se sentou na cama de costas para ele, checando as notificações à procura de notícias de Inko; preocupava-se com ela também, ainda mais após a ligação que ouviu na manhã daquele dia.
Sem nenhum retorno ou pista, resolveu ligar para garantir; fechou os olhos enquanto o telefone chamava, desejando mentalmente com todas as forças que atendesse e estivesse bem.
- Olá, jovem Izuku. - Uma voz grave saudou.
Bakugou arregalou os olhos, perplexo.
- Senhor Yagi…?
- Ah, jovem Bakugou, que surpresa.
- Eu que o diga… a dona Inko está bem?
- Quer dizer… podia estar melhor.
O íncubo pausou e esfregou o rosto.
- Eu imagino… obrigado por cuidar dela.
- Digo o mesmo. Por falar nisso, como está o jovem Izuku?
- Bom, “podia estar melhor”. - Repetiu. - Reservamos o dia hoje para tentar animá-lo, mas o Hisashi teve que ligar, agora há pouco.
- E o que ele queria? - Toshinori indagou espantado.
- Só apontar o dedo; parece que ele ainda acha que merece respeito, mesmo depois do que fez. - Respondeu com desdém.
Uma pausa se fez do outro lado.
- Inacreditável.
- Não é? Só espero que ele não continue insistindo; bloqueei o número de telefone dele, mas não quero ter que entrar com uma medida cautelar.
- Acha que ele iria tão longe? - Yagi indagou temeroso.
- Espero que não… só queríamos terminar essa viagem logo de uma vez e voltar para casa.
- Deve ser difícil… a Inko também está sofrendo muito com tudo isso, me sinto mal pelos dois.
- Todos nos sentimos. - Bakugou falou devagar.
- Bom, tenho que ir agora, estou encarregado de cozinhar o almoço. - Yagi riu acanhado.
- Entendo… obrigado por estar cuidando da dona Inko, senhor Yagi, e desculpe por ter que te meter nessa.
- Não tem problema, pode garantir que vou estar aqui por ela, e obrigado por estar aí pelo jovem Izuku.
Katsuki sorriu.
- Sem problemas.
- Até depois.
- Tchau.
Encerrando a ligação, Bakugou colocou o celular de volta no criado mudo ao lado de Izuku e fitou seu rosto sardento abaixo de si; adorava observá-lo em seu sono, o esverdeado sempre parecia tão sereno e adorável, desta vez, no entanto, parecia exausto.
O íncubo não se aguentou, se aproximou devagar e, com todo o cuidado do mundo, deixou um beijo no canto de sua boca antes de deitar ao seu lado e tentar dormir um pouco.
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