
Intangível
*Kotatsu: Uma mesa baixa a nível do chão que comporta uma manta térmica.
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A viagem de carro encerrou-se sob um diálogo ocasional; uma vez em seu destino, Enji fez questão de acompanhar Midoriya até a porta, foi onde pararam para se despedir.
- Obrigado por me trazer de volta, senhor Todoroki. – Disse o Ômega sorridente.
- Sem problemas, fico aliviado em saber que vai ficar a salvo. – Respondeu com um sorriso que quase fez Izuku derreter.
O pequeno fitou o chão com um rubor se espalhando pelas bochechas sardentas, de repente, Enji retirou algo da pasta que carregava consigo.
- Eu, hã... comprei algo para você enquanto estava se aprontando para sair... – Anunciou devagar, puxando uma caixa de torta de frango e outra de torta de morango.
Izuku salivou ao cheiro irresistível, aceitando ambos os presentes com uma palpitação no peito, a vermelhidão em seu rosto escurecendo; olhou para cima para se deparar com a expressão ansiosa no rosto do Enigma. Izuku abriu um sorriso caloroso.
- Muito obrigado... senhor Todoroki. – Disse baixinho, suas palavras pareceram aliviar o homenzarrão.
- Que bom que gostou... sei que não é muito, mas-
- Não, não! Pelo contrário... geralmente não recebo mais de uma refeição dos meus cortesãos. – Interrompeu o Ômega, suas palavras desta vez fizeram-no parar de sorrir, dando lugar a um olhar decepcionado, o que deixou Izuku confuso.
- Você precisa escolher melhor os seus cortesãos, Midoriya... você vale muito mais do que isso. – Comentou devagar.
Apesar de confuso, Izuku abaixou os olhos, tristonho; mesmo tendo tido experiências desagradáveis com cortesãos recentemente, achava que Enji entendia seus motivos.
O homenzarrão pigarreou.
- Bom, erm... talvez seja melhor entrar, sua mãe deve estar esperando. – Avisou ele, acanhado.
- Ah, claro... Obrigado, mais uma vez.
- Tudo bem... você ainda tem meu contato, certo? Pode me chamar sempre que precisar. – Indagou Enji devagar, buscando o chapéu num bolso do casaco.
- Não quero incomodar. – Respondeu o Ômega de prontidão.
- Você não é um incômodo, Midoriya. – Enji disse suave com toda a sinceridade, o que piorou o acanhamento de Izuku.
- Certo... obrigado, vou manter isso em mente...! – Disse rapidamente ao destrancar a porta com Enji logo atrás, e ele ficou lá, esperando para que estivesse seguro dentro de casa para acenarem suas despedidas e só foi embora quando ouviu a segunda volta da chave.
Virando-se para o interior da casa, Izuku deparou-se com a figura materna já dando as caras no corredor principal.
- Bem-vindo, querido... quem era lá fora? – Indagou curiosa.
- Ah- mãe! – O Ômega sobressaltou com a aparição repentina, não havia a visto chegar.
- Ora, você trouxe duas caixas de torta desta vez? – Comentou impressionada.
- Bom... isso é-
- E que cheiro é esse? – Interrompeu ela, farejando o ar com uma sobrancelha arqueada.
Izuku pausou, quando parecia haver terminado o interrogatório, este suspirou e entregou as tortas para a mãe no que retirava a mochila, buscando o sobretudo do Enigma guardado lá dentro.
Inko entreabriu a boca, incrédula; antes que pudesse perguntar mais alguma outra coisa, seu filho se pronunciou.
- Esqueci de devolver o sobretudo pro senhor Todoroki... queria lavar antes de poder fazer isso. – Explicou devagar.
Inko pausou, espremendo os lábios juntos numa linha fina; não sabia o que pensar de tudo aquilo, também não queria tirar conclusões precipitadas, por isso partiu para outra abordagem.
- Certo... deixe na lavanderia, depois cuido disso. Agora vamos comer? – Sugeriu, gesticulando às tortas em suas mãos.
Izuku sorriu de leve e assentiu, fazendo como foi instruído antes de voltar para jantar com sua mãe. A mesa já estava posta quando voltou e Inko aguardava sentada no kotatsu* com um sorriso sereno; Izuku já pressentia o que sairia dali. Engoliu em seco e uniu-se à sua mãe debaixo da manta térmica, movendo-se com cautela.
- Sabe... eu sempre quis que encontrasse alguém exclusivo, querido... – Começou ela, fazendo o filho gemer descontente.
- Mãe... ainda não posso dizer o que o senhor Todoroki acha de mim. – Resmungou impaciente.
Inko fitou-o surpresa e pausou antes de sorrir sugestivamente.
- E quanto às tortas e o sobretudo?
Izuku corou à acusação.
- N-não devem significar nada! Além do mais, ainda vou devolver o sobretudo para ele...
- Você não quer tirar conclusões precipitadas e isso é bom... só não seja tão pessimista quanto a isso, seria uma grande perda.
- Ele não deve gostar de mim assim... só fez o seu trabalho em me proteger. – Izuku falou devagar em tom baixo.
O sorriso de Inko se desfez àquelas palavras.
- O que eu falei sobre pessimismo? – Suspirou.
- Só estou sendo realista. – Resmungou ele em retorno.
- Olha, querido... acho que eu reconheço uma pessoa apaixonada quando vejo.
Izuku corou com um embrulho no estômago.
- Bom... talvez, mas não sei se posso dizer se o senhor Todoroki vem ao caso...
- Izuku... ele está claramente tentando te cortejar.
O Ômega inflou as bochechas, impaciente.
- Isso não precisa significar muita coisa, além do mais, você tem razão... não quero tirar conclusões precipitadas.
Inko sorriu compreensiva.
- Está bem... desculpe, querido; só não vá perder uma oportunidade dessas, mesmo que o medo te atrapalhe.
Izuku não respondeu, apenas alcançou um prato para se servir, sua mãe seguiu a deixa.
- A propósito, querido... – Disse ela mais uma vez, chamando sua atenção. – eu só quero que saiba que... vocês têm meu apoio.
Izuku corou novamente, desta vez com um sentimento reconfortante no peito.
- Obrigado, mãe. – Sorriu tímido.
Sua mãe sorriu em retorno, compreensiva, prosseguiram então a se servirem enquanto conversavam sobre o que fizeram no dia; de repente, com a bênção da sua mãe quanto ao Enigma, Izuku só podia fazer agradecer.
Depois do jantar e com a louça lavada, Inko fez como prometido e botou o sobretudo do Enigma para lavar, instruindo a Izuku para que retirasse da secadora quando terminasse de bater; no meio da noite, o sardento estava terminando os deveres de casa quando o apito da secadora soou e levantou para completar a tarefa como sua mãe lhe instruiu. Tirou a peça da máquina com cuidado, esticando nos braços para dar uma boa olhada; podia estar sendo cauteloso demais, mas era o Enigma... não poderia devolver o sobretudo com um fiapo sequer.
Mesmo depois de lavar, Izuku notou que o almíscar do Enigma permanecia impregnado no tecido, o que fazia sentido vindo do dono da peça. Izuku pausou, dobrou o sobretudo com cuidado e levou-o para seu quarto, para garantir que se lembraria de colocá-lo na mochila para devolver ao senhor Todoroki, sentou-se de volta à escrivaninha e tentou se concentrar em terminar o dever, mas o odor entorpecente que impregnava o ar era uma distração e tanto; decidiu desistir por hora e terminar na manhã seguinte antes da aula e vestiu o pijama para dormir.
Mesmo debaixo das cobertas, o cheiro do Enigma o mantinha acordado, fazendo-o sonhar com o dono do almíscar em vez de se entregar ao sono; remexia-se na cama impacientemente, grunhindo e resmungando em voz baixa. Estava com um certo “bloqueio” desde o ataque do Chisaki, mas dessa vez não conseguiria se conter.
Com o rosto corado, hesitou mais um pouco e então levou a mão para dentro do short do pijama. Parecia errado, mas nunca se tocou daquela forma antes em sua vida.
Um novo dia se iniciou e Izuku garantiu de guardar o sobretudo na mochila antes de sair pra escola; mesmo que não tivesse certeza de que veria o senhor Todoroki naquele dia, ainda poderia pedir para o amigo devolver por ele.
Adentrando os portões da UA, o Ômega foi abordado por Hitoshi.
- Bom dia, Midoriya. Como está? – Perguntou cauteloso.
- Ah... bom dia, Shinsou... – Izuku respondeu devagar; como Shinsou sabia alguma coisa sobre o que aconteceu com Chisaki, se viu impossibilitado de mentir. – Bom, na medida do possível...
O arroxeado fitou-o com pesar.
- Entendi... espero que melhore. – Comentou devagar.
- Bom- estou me recuperando. – Izuku riu nervoso.
- Já é um começo.
- É... mas e você? Como tem passado?
Hitoshi arregalou os olhos de leve, surpreso, então sorriu caloroso.
- Não podia estar melhor... e tudo graças a você. Obrigado pela recomendação.
Izuku fitou-o curioso, a ficha caiu quase que na mesma hora.
- Entendi... fico feliz por vocês dois! – Sorriu em retorno.
- Obrigado... só não estamos ficando sério ainda, então espero que não fique espalhando por aí. – O arroxeado sorriu com uma sobrancelha arqueada.
- Pode deixar, tem minha palavra! – Izuku garantiu solenemente.
- Seu besta. – Hitoshi zombou. – Bom, tenho que ir, então acho que te vejo por aí.
O esverdeado assentiu.
- Claro!
Nisso, Shinsou seguiu na frente em direção à sala de armários, Izuku só pôde fitar sua nuca de uma distância com um sorriso que não se apagava; fazer aquela boa ação trouxe um sentimento reconfortante em seu peito.
Fazendo seu caminho à sala A, Izuku encontrou seus amigos e apressou o passo em sua direção.
- Bom dia, pessoal! – Saudou alegre.
- Bom dia, Midoriya! – Iida foi o primeiro a responder.
- Descansou bem? – Uraraka acrescentou logo em seguida.
- Ah, sim! Obrigado. – Izuku riu com a mão na nuca.
Antes que Todoroki pudesse abrir a boca, notou o olhar de Midoriya sobre si e arqueou a sobrancelha, curioso.
- O que foi? – Indagou.
Izuku remexeu-se desconfortável, olhando os arredores enquanto procurava um motivo para desviar do assunto que queria trazer consigo.
- A-ah! O dever de casa! Isso... não consegui terminar a lição de inglês, poderia me ajudar?
Todoroki fitou-o confuso, sentia que não era aquilo que Midoriya queria dizer; estava completamente alheio aos olhares ciumentos dos outros dois sobre si. Não era segredo para ninguém que o bicolor tinha a nota mais alta em inglês da turma A, mesmo assim, Iida e Uraraka sentiam-se meio negligenciados por Midoriya perguntar só para ele.
- Claro... vamos nos sentar. – Concordou devagar, ainda não notando seus amigos metralhando-o com os olhos.
- Obrigado. – Disse Izuku ao segui-lo para dentro da sala, passando por entre Iida e Uraraka no que tentava ignorar seus olhares.
Não queria ficar desviando do assunto ou esconder de seus amigos; Izuku poderia muito bem pedir para Todoroki devolver o sobretudo para o pai, mas talvez ainda tivesse esperanças de poder fazê-lo pessoalmente.
O esverdeado sentou em sua carteira costumeira e Todoroki puxou uma cadeira extra, sentando ao seu lado; por mais que soubesse que devia desistir de Midoriya, passar mais tempo com ele, mesmo que para algo tão banal, deixava-o eufórico por dentro, ainda mais tendo sido escolhido no lugar de Iida ou Uraraka.
- E então... – O bicolor começou. – onde parou?
- Ah... – Izuku comentou devagar e abriu a mochila para buscar seu caderno e materiais, foi quando aquele almíscar entorpecente e terrivelmente familiar invadiu suas narinas. É claro, havia esquecido desse detalhe...
Envergonhado, Izuku engoliu em seco e fitou os olhos bicolores do amigo que o encaravam em choque; estava prestes a se explicar quando Todoroki pigarreou.
- Vamos logo com isso, está bem? – Resmungou magoado.
Izuku sentiu-se mal por ele, mas não ia insistir no assunto e piorar seu humor, apenas concordou e buscou rapidamente os materiais para dar início à sessão de estudos mais desconfortável de suas vidas. Realmente, Shouto devia desistir do esverdeado, por mais que lhe doesse admitir.
Ao longo do dia, o Ômega tentou ser o mais discreto possível quanto ao que guardava na mochila, no entanto, sempre que buscava seus materiais de estudo, os colegas ao redor farejavam o ar, procurando a origem do almíscar, até começaram a comentar em certo ponto e, como metade da sala mantinha sempre os olhos em si, alguns perceberam que estava escondendo algo, deixando seus interesses românticos de corações partidos, seus amigos inclusos; até Kacchan chegou a lançar olhares de relance para trás, negando com a cabeça vez ou outra, o que só piorou o acanhamento do menor.
Geralmente não se sentiria constrangido com algo do tipo, Izuku tinha essa reputação afinal, mas era a primeira vez que se via de fato apaixonado por alguém, era um sentimento muito novo para ele, sem mencionar que ainda não sabia dizer qual a opinião de Enji quanto a si mesmo, não poderia tirar conclusões precipitadas, isso só pioraria uma possível rejeição; mesmo que não quisesse ser tão pessimista, ainda era o Enigma, suas chances eram baixas perto de qualquer outro cortesão que ele poderia ter, até mesmo os que ainda não tivessem se apresentado a ele.
O sinal de saída soou como música em seus ouvidos, Izuku não pôde evitar um suspiro após guardar o material em segurança na mochila e levantou-se em direção à porta, lançando um olhar piedoso aos seus amigos de uma distância, seguindo pelos corredores sozinho. Não queria mesmo ficar em maus termos com eles, mas sabia como seria difícil se aproximar depois de tudo.
Seguindo à sala de armários, o Ômega trocou os sapatos, cabisbaixo, então dirigiu-se lentamente à porta principal, quase que no mesmo momento em que pisou para fora, notou um alvoroço no portão e ergueu a cabeça, curioso. Aproximando-se para ver mais de perto, seus olhos arregalaram à figura alta e imponente que despontava do meio da multidão, não pôde evitar fazer seu caminho em meio à onda de estudantes até que estivesse na primeira fileira, frente à frente com o Enigma.
- Midoriya. – Comentou sorridente, sua voz grave calando os estudantes aos poucos ao nome chamado.
Talvez quisessem acreditar que ouviram errado ou que pudesse ser um engano, mas todos ficaram mortificados no que o Enigma oferecia a mão ao Ômega.
Izuku engoliu em seco, de repente acanhado por estar atraindo aquele tipo de atenção; aceitou a oferta hesitantemente, deixando o senhor Todoroki guiá-lo para o carro onde esperava o chofer, deixando para trás uma onda de colegiais bufando de ciúmes.
Uma vez no carro, Izuku suspirou exalado de alívio; fugir daquela onda de estudantes direto pro carro quase o fez sentir-se no tapete vermelho, como se estivesse acompanhado de uma celebridade, o que, convenhamos, não passava muito longe dessa realidade...
Izuku observou a multidão se distanciar pela janela por um momento até virar-se pro senhor Todoroki.
- Hum... o que veio fazer aqui? – Perguntou com cautela.
- Só queria garantir que fosse ficar bem. Você trabalha na lanchonete hoje, certo? Posso te levar até lá. – Explicou o mais alto.
- Obrigado pela preocupação, senhor Todoroki, mas não precisa! Acho que devo estar seguro o suficiente agora, ainda mais com o Chisaki na cadeia... – Disse aquela última parte meio hesitante, não querendo realmente se lembrar.
- Você sempre tenta me despachar desse jeito... espero que a minha presença não esteja te incomodando. – As palavras de Enji fizeram os olhos do Ômega arregalarem.
- Não! Não é isso... – Izuku exclamou de prontidão. – eu só não quero te atrapalhar para sempre... você sempre faz tanto por mim e deve ser um homem muito ocupado, não quero ficar no meio dos negócios que tem a tratar.
Enji sorriu compreensivo.
- E se eu disser que você está no topo das minhas prioridades?
Izuku fitou-o curioso.
- Hã...?
- A verdade, Midoriya, é que eu queria me oferecer para te buscar na escola, daqui em diante.
O Ômega corou com o coração acelerado, seu fôlego prendendo no peito por um breve momento; estava tentado em recusar, não poderia deixar se meter no meio dos negócios do Enigma, no entanto, a vontade de se aproximar dele e conhecer melhor a pessoa que estava trabalhando para se tornar fizeram-no falar antes que pudesse segurar a língua.
- Sim... seria uma honra, senhor. – Concordou devagar com seus grandes olhos brilhantes encarando Enji com admiração.
Enji sorriu sereno.
- Que bom... é o que eu esperava ouvir.
Ambos encararam-se por um momento em que o chofer, assistindo a cena pelo espelho retrovisor, revirou os olhos antes de voltar sua atenção pra estrada; pouco depois, o rosto de Izuku iluminou-se ao perceber algo.
- Ah, é! – Exclamou ao remexer a mochila. – Eu queria te devolver uma coisa.
Assim que viu-o puxando o sobretudo daquela fatídica noite, Enji ergueu uma sobrancelha curiosamente.
- Desculpe se está meio amassado, não tinha outro lugar para guardar a não ser minha mochila... e-e desculpe se eu demorei tanto, quis levar para lavar antes por causa da lama na bainha... Espero que tudo bem...
Enji pegou o sobretudo com um sorriso caloroso.
- Não precisa se preocupar, quase não me dei falta disto, mas obrigado pelo cuidado.
Izuku abaixou a cabeça com um sorriso corado; ambos calaram-se por outro momento, aproveitando a companhia do outro sem trocar muitos olhares.
Desviando os olhos ao espelho uma vez mais, o chofer não pôde evitar um pensamento. Aqueles idiotas ainda pareciam ter um longo caminho até cair a ficha e alguém dar o primeiro passo.
Nota Autoral
Ngm tira da minha cabeça que o Todoroki tem a nota mais alta em inglês uwu
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