
A Dura Realidade
*As aulas em escolas japonesas ocupam, literalmente, o dia inteiro.
*Genkan: Aquelas tradicionais entradas para residências japonesas onde se guardam sapatos.
*Bentou: Uma espécie de pote retangular usado para carregar marmita.
*Kotatsu: Uma mesa baixa a nível do chão que comporta uma manta térmica.
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Havia uma estranheza tangível na volta do almoço; enquanto o trio de amigos mal conseguia encarar Midoriya direito após a promessa coletiva feita em sigilo, o próprio esverdeado imaginava que seu distanciamento repentino se dava ao fato de tê-los deixado de lado por um de seus cortesãos e se sentia mal por isso.
Não tiveram muito tempo para conversar antes da retomada das aulas, por isso apenas sentaram em seus devidos lugares e passaram o resto do dia letivo lançando olhares sorrateiros entre si.
Ao sinal de saída, Midoriya não perdeu tempo, ignorou o próximo cortesão que tentou se aproximar e foi direto aos seus amigos.
- Pessoal… - Chamou devagar. - Eu- sinto muito que não possamos passar tanto tempo juntos… Não tinha percebido o quanto os estava deixando de lado.
O grupo se calou em acanhamento, todos encarando o chão de seus lugares; Todoroki foi o primeiro a se levantar.
- Tudo bem, Midoriya… você tem seus motivos e eu entendo. Às vezes precisamos priorizar certas coisas-
- Não. - Izuku interrompeu com firmeza. - Meus amigos têm que ser uma das minhas maiores prioridades… eu devia arrumar mais tempo para vocês.
Iida e Uraraka encaravam a cena confusos enquanto Todoroki entrava num silêncio compreensivo; o Delta parecia saber de algo fora do conhecimento de ambos, o que gerou uma pontada de ciúmes.
- Mas-
- Eu vou compensar. - O esverdeado interrompeu Todoroki uma vez mais antes que este pudesse argumentar. - Vou me organizar melhor e arrumar mais tempo para vocês… Uma amizade deve funcionar em conjunto, não posso deixar isso morrer… Vocês são muito importantes para mim.
O silêncio que se seguiu se espalhou do grupo de amigos até preencher a sala, todos os que restavam no recinto de repente prestando atenção à conversa alheia.
- Midoriya. - O bicolor se pronunciou ao pousar uma mão reconfortante em seu ombro. - Obrigado pela garantia, mas não precisa… Não posso dizer que entendo bem o que está passando, mas entendo que sempre teve seus motivos. Mas não deixa de ter razão, amizades não funcionam bem assim. - Shouto soltou seu ombro devagar com um sorriso leve. - Obrigado por se esforçar tanto… vamos trabalhar nisso juntos, certo?
- To-Todorokiii…! - Midoriya se pronunciou no que lágrimas fluíam de seus olhos de forma cômica.
Seus amigos sorriram em compreensão enquanto os outros alunos riam às suas custas.
- Vamos, Midoriya, seque essas lágrimas! - Iida se pronunciou ao se aproximar em seu jeito robótico. - Não podemos controlar certas situações, por isso acabamos não passando tanto tempo juntos, mas ainda podemos resolver isso.
- Isso aí! - Uraraka concordou determinada. - Desculpe ter reagido daquele jeito, não quis fazer parecer como se estivesse brava com você… mesmo assim, obrigada por entender! Você faz muita falta, às vezes… - Disse ela ruborizada.
Izuku concordou e secou as lágrimas com as costas das mãos.
- Vamos sair qualquer dia desses… podemos discutir os detalhes por mensagem e combinar uma data!
- Esse é o espírito! - Tenya golpeou o ar em sua direção, os outros dois concordaram.
- Vamos indo? Antes que passemos o resto da noite na escola*. - Shouto sugeriu, o grupo então seguiu sua iniciativa ao sair da sala em conjunto.
Uma vez na sala de armários, os amigos se separaram para trocar os sapatos; assim que Izuku terminou a tarefa, antes que pudesse se virar para sair, alguém se aproximou e envolveu seu pescoço com um braço forte, impedindo-o de se mover.
- E aí, Midoriya! - Chamou a voz em seu ouvido.
- Ah… é você, Sero… - Izuku falou devagar em sua impaciência.
O Beta de cabelos escuros sorriu debochado.
- Nem mesmo um “oi” depois de ter fugido de mim mais cedo, na sala?
- Desculpe, eu tinha assuntos mais importantes para tratar… - Respondeu ao remover a mão do mais alto de seu ombro. - E você sabe o que eu penso, não vou ficar me repetindo.
O Ômega se moveu para sair, mas a figura loira se pondo em sua frente bloqueou o caminho.
- Oi, Midoriya… - Saudou o Ômega de forma ríspida, seus braços cruzados em impaciência e uma veia latejando em sua têmpora.
- Ah, oi Kaminari… Vejo que também veio de saia hoje, ficou bem em você! - Suas palavras pareceram piorar a raiva do seu colega.
- Claro… - Retrucou ele. - Deve ter se “divertido” bastante com o Shinsou hoje, hein?
Izuku suspirou inaudível com um sorriso cansado; a “quedinha” de seu colega de classe pelo Delta arroxeado já não era segredo, mas Kaminari era o único competindo na ocasião.
Não sabia dizer se o loiro estava mesmo a fim de Shinsou ou se estava apenas querendo adicionar mais um à sua “lista” de cortesãos que, convenhamos, era quase tão longa quanto a de Midoriya, mas a rixa que Kaminari tinha consigo não era realmente da sua conta, Shinsou também tem o direito de sair com quem bem quiser, não podia controlar se o Delta escolheu cortejar Izuku ao invés de Denki.
Não ia ficar discutindo, apenas abriu a boca ao se mover para desviar do loiro.
- Desculpe, Kaminari, mas vou me atrasar pro- Aaah!? - Exclamou ele no que um par de mãos agarrou sua cintura por trás, surpreendendo-o e interrompendo seu discurso.
Virou-se rapidamente com o susto para se deparar com o Delta que encarava-o com um sorriso radiante.
- Kirishima! O que já conversamos sobre limites?! - Repreendeu-o impacientemente.
- Bom, eu não sei, você pode ter dito alguma coisa sobre isso, mas não devo ter prestado atenção, ha ha ha! - O ruivo levou uma mão à nuca no que ria corado.
- Nem percebi… - Retrucou devagar em tom sarcástico.
- Enfim… eu estava pensando se não quer ir no karaokê com-
- Desculpe, Kirishima, vou me atrasar pro meu turno. - Interrompeu o Ômega ao se virar para sair.
- Ah- então deixa eu te levar até lá! - Insistiu o ruivo.
- Assim não vale, Kirishima! - Sero protestou.
Izuku suspirou impacientemente.
- Eu já falei… não vou sair com nenhum dos amigos do Kacchan. - Explicou ele emburrado ao se voltar para trás.
- Qual é, Midoriya! Sabemos o tipo de relacionamento que tem com o Bakugou mas, só porque somos amigos dele, não significa que vamos te tratar do mesmo jeito… - Kirishima falou devagar.
O esverdeado revirou os olhos.
- Não é por isso, também não estou preocupado com essa possibilidade.
- Mas Midoriya… você nunca explica direito porquê recusa a gente. Por que continua saindo com metade da escola, mas nenhum de nós tem esse direito? - Sero perguntou frustrado.
- Acha mesmo que eu preciso sair com qualquer ser vivo que respire? - Izuku indagou devagar em sua impaciência.
O Beta quase engasgou na própria saliva ao perceber a gafe.
- N-não quis dizer-!
- Olha, eu não tenho tempo para ficar e conversar agora, preciso ir pra lanchonete antes que eu me atrase… - O sardento interrompeu Sero ao se apressar em direção à saída, mas não antes de se virar para fazer um último pedido a eles. - Ah, e… por favor, parem de insistir. Eu tomei minha decisão quanto a vocês e prefiro manter assim. Não vamos deixar a situação entre nós mais desconfortável, está bem?
Os mais altos não tiveram tempo de responder, apenas assistiram envergonhados enquanto Midoriya saía pela porta sem olhar para trás, mas não era como se fossem encontrar palavras para lhe dizer após aquele sermão.
Kaminari, por sua vez, queria ter repreendido os amigos por se envergonharem daquela forma, ainda mais por Midoriya de todas as pessoas, mas decidiu apenas lançar um olhar decepcionado em sua direção, criticando-os em silêncio. Talvez eles não precisassem ouvir mais depois daquela humilhação.
Do lado de fora, os amigos de Izuku logo se aproximaram ao vê-lo.
- Pessoal… não precisavam ficar esperando por mim, vocês sabem que preciso me apressar pro trabalho. - Apontou o esverdeado.
- Digamos que não podemos te confiar sozinho por muito tempo… - Todoroki comentou devagar, ganhando olhares surpresos de seus amigos.
- Como assim…? - Midoriya tombou a cabeça pro lado em confusão.
Iida tossiu constrangido.
- O que ele quis dizer, Midoriya, é que não podemos confiar em qualquer um que tenta se aproximar.
O sardento sorriu cansado.
- Não precisam se preocupar tanto, pessoal…
- Precisamos, sim. Você demorou um pouco para sair desta vez, estava quase indo te buscar. - O bicolor comentou de forma monótona.
- Ah, foram só os amigos do Kacchan. - As palavras do Ômega pegaram seus amigos desprevenidos.
- Eles continuam nisso…? E você está bem, Deku? - Uraraka indagou preocupada.
- Não acho que o Kirishima ou o Sero sejam capazes de fazer alguma coisa. - Izuku riu em seu discurso.
- Eu não teria tanta certeza disso… - Disse o bicolor incomodado e com uma veia saltada na têmpora.
Iida não pôde deixar de concordar com a afirmação, acenando a cabeça antes de golpear o ar em direção ao Ômega.
- Insistir dessa forma chega a ser assédio. Eu devia reportá-los à coordenação, seria meu dever como representante de turma.
- Não precisa, Iida! - Izuku acenou as mãos negativamente. - Não vamos ir tão longe por causa disso, além do mais, eles não devem incomodar mais agora que eu passei a mensagem.
- “Mensagem”…? - O mais alto repetiu devagar e ajustou os óculos. - Certo… vou deixar passar desta vez, mas me avise se eles continuarem insistindo.
Izuku sorriu impacientemente.
- Vou manter isso em mente…
- Midoriya!
Curiosos, os amigos levantaram os olhos em direção ao chamado, avistando um rapaz loiro de jaqueta de couro marrom acenando em direção ao grupo.
- Ah-! É o Takami. - Anunciou o esverdeado antes de se voltar aos seus amigos. - Tenho que ir agora, pessoal, minha carona chegou.
Os outros três concordaram a contra gosto, resmungando sua compreensão de forma forçada em voz baixa.
Izuku sorriu acanhado.
- Vamos combinar de sair qualquer dia desses. - O anúncio iluminou as expressões dos seus amigos, cujos levantaram os olhos surpresos em direção ao Ômega. - Depois discutimos os detalhes por mensagem, mas agora tenho que ir trabalhar… Até logo!
Sorrindo em alívio, o grupo acenou suas despedidas em direção ao amigo no que este corria em direção ao rapaz que o aguardava em frente ao portão, cumprimentando-o com um selinho. Apesar de mais animados com a promessa, não puderam evitar o sentimento amargo que ficou ao verem o mais velho guiando o pequeno para fora dali com uma mão em volta da sua cintura.
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- Olá! Sejam bem-vindos à Wild, Wild Pussycats! Mesa para três? - Cumprimentou o Ômega alegre ao grupo de homens que acaba de adentrar a lanchonete.
- Já deve imaginar, docinho. - Respondeu um dos homens com um riso do fundo da garganta.
- Muito bem. Por aqui, por favor! - Disse o esverdeado ao indicar uma direção, o grupo então seguiu-o no que liderava o caminho.
Os três homens coravam e sorriam com malícia ao Ômega à frente, prestando plena atenção ao modo como suas coxas se moviam debaixo da saia do uniforme, mal ouviram seu chamado no que chegaram à mesa.
- Senhores fregueses…? - Disse ele pelo que deve ter sido a segunda vez, finalmente conseguindo a atenção do trio. Izuku sorriu cansado antes de se repetir pela terceira vez. - Podem se sentar, por favor.
O grupo se calou por um momento e ninguém obedeceu, logo um deles tomou a dianteira e se aproximou um pouco demais do Ômega.
- Na verdade… estava pensando se não quer dar uma volta com a gente? - Convidou ele.
Izuku semicerrou as pálpebras em sua impaciência, tomando um tempo para se acalmar internamente e manter a compostura.
- Sinto muito, estou em expediente. - Respondeu plenamente.
- Ah, vamos, vai? Vai ser rapidinho, ninguém vai nem notar. - Insistiu um dos rapazes.
Com um suspiro inaudível, o esverdeado se moveu para sair.
- Desculpem, mas estamos lotados hoje; se não vão pedir nada, peço licença mas tenho q-
Seu discurso foi interrompido no que uma mão segurou seu braço com força.
- Ninguém pediu sua opinião. - O rapaz à frente falou ameaçadoramente.
De repente todos os olhos no estabelecimento estavam sobre a cena, não tardou para uma presença ameaçadora se pôr atrás do trio de homens e uma voz grave trovejou em sua direção.
- O que está acontecendo aqui?
Os três rapazes olharam para trás e se depararam com uma figura grande e musculosa de feição intimidadora que os repreendia duramente.
- Ah, Chatora! - Izuku chamou.
O rapaz à frente largou o braço do Ômega devagar, atordoado enquanto Chatora bufava pelo nariz.
- Esses caras estão te incomodando, Midoriya?
- Bem…
- A-ah-! Desculpem, acho que entramos no lugar errado! - Os rapazes exclamaram ao se apressarem pra saída, falando por cima do Ômega antes que este pudesse terminar a frase.
Todos olharam-nos em confusão no que corriam para fora da lanchonete, Midoriya, por sua vez, sorriu aliviado em direção ao colega de trabalho.
- Obrigado… salvou minha pele!
- Sempre à disposição. - Respondeu o rapaz musculoso solenemente.
- Você tem mesmo um “dom” para atrair pessoas inconvenientes, hein, Midoriya? - Comentou uma voz de uma mesa próxima, ambos os garçons se viraram para Takami.
- Você não precisa ficar para tomar conta de mim, sabe? - Izuku mencionou.
O loiro tomou um longo gole da sua bebida antes de responder, seus olhos dourados sempre fixados em Midoriya.
- Você viu o que acabou de acontecer… é claro que preciso.
- Acho que posso me virar sozinho, Takami. - Disse o esverdeado em sua inocência.
- Às vezes você confia demais nas pessoas, Midoriya… nunca se sabe quem você pode encontrar por aí. - Chatora raciocinou.
Izuku sorriu cansado ao colega de trabalho, antes que pudesse contra argumentar, alguém os estava repreendendo.
- Vocês dois… - Os feromônios emanando em sua direção indicavam que a dona da voz estava perdendo as estribeiras. - Parem de fazer corpo mole no meio do expediente!
- S-sim, chefe! - Gaguejou o Ômega à figura loira no que ambos se moviam para continuar o trabalho enquanto a gerente negava com a cabeça.
Desde que a antiga gerente passou o cargo para Tsuchikawa, a Delta loira vinha pegando meio pesado com Midoriya; seus colegas especulam que seja por uma questão de inveja, o Ômega sempre foi muito popular e desejável afinal, por isso parecia que a Delta se sentia na necessidade de competir com o garçom, mesmo que ele próprio não sentisse o mesmo.
- Foi um bom trabalho! - Os funcionários da lanchonete disseram em uníssono em despedida ao fim do expediente.
Assim que Midoriya pisou para fora, já com o uniforme trocado, ouviu uma buzina e levantou os olhos para Keigo esperando em sua moto como prometido. O Ômega sorriu animado e correu para o veículo que os levou diretamente para um condomínio de baixa renda num bairro pobre; geralmente Izuku sentiria vergonha em deixar qualquer um ver o lugar onde mora, mas abria essa exceção para seus cortesãos já que a maioria deles costumava ficar super protetor em relação a si.
Estacionando próximo à entrada do prédio, ambos removeram os capacetes e Izuku se virou pro Beta.
- Obrigado pela carona, Takami! - Disse ao devolver o capacete extra.
- Sem problemas, amorzinho… contanto que não esqueça do meu beijo. - Respondeu com um sorriso de lado.
O Ômega estreitou os olhos e se aproximou para um beijo de despedida de bom grado; Keigo enlaçou um braço ao redor da sua cintura e fez uma breve pausa ao se separarem.
- Ei, Midoriya… - Chamou num sussurro.
- Uhm…? - Izuku cantarolou sedutoramente.
O Beta pareceu hesitar no que procurava as palavras certas.
- Boa noite.
Izuku piscou em confusão antes de responder devagar.
- Boa noite… - Disse com uma sobrancelha arqueada.
Com um último aceno de despedida, o esverdeado se afastou e subiu para o condomínio em direção à sua casa, Keigo observou-o até sumir de vista para garantir que entrasse a salvo; assim que o Ômega desapareceu, Keigo acelerou a moto e dirigiu em direção ao seu apartamento.
Enquanto destrancava a porta de casa, Izuku ficou imaginando o que Takami poderia querer para mudar de assunto tão de repente, estava bem claro que “boa noite” não era tudo o que queria lhe dizer. Botando aquele pensamento de lado, simplesmente adentrou o genkan* e trancou a porta novamente para depois descalçar os sapatos com um suspiro.
- Bem-vindo, querido! - Saudou a figura rechonchuda que se aproximou. - Fez uma viagem segura de volta para casa?
O esverdeado sorriu cansado à sua preocupação genuína.
- Eu estou bem, mãe… o Takami insistiu em me dar carona.
A Ômega sorriu, um pouco mais aliviada.
- Que bom que ele é um que parece se preocupar!
Seu filho suspirou; às vezes ele gostaria de poder ser visto como algo mais do que uma “donzela em perigo”. Sua mãe sempre foi a que mais se preocupou, o que chegava a ser intrusivo às vezes.
Decidindo não comentar sobre o assunto, Izuku apenas removeu a mochila das costas, tirando um bentou* e uma caixa de torta que fizeram sua mãe salivar.
- Deixando isso de lado, eu trouxe umas sobras pro jantar. - Anunciou ele.
- Ah, querido! Eu estava preocupada que poderíamos ficar sem jantar hoje de novo, isso é mais do que tem na geladeira! - Disse emocionada.
- É mesmo, não é…? - O esverdeado sorriu melancólico. - Vou botar a torta na geladeira para comermos depois de dividir o bentou, certo?
- Obrigada! - Disse Inko com voz embargada.
Sentaram-se para comer no kotatsu* da sala, que era a única mesa que tinham disponível. Como não podiam realmente bancar o aquecimento pros dias frios, o kotatsu sempre vinha a calhar nessas ocasiões.
No que Izuku dividia o conteúdo do bentou em duas porções, sua mãe não conseguia parar de salivar à aparência e cheiro irresistíveis.
- Isso parece estar muito bom! - Comentou ela.
- É mesmo, a Fuyumi é uma ótima cozinheira. - Complementou Izuku.
Inko pausou, claramente tinha algo coçando no fundo da sua garganta.
- Izuku… não quero parecer intrusiva, mas… como conseguiu isto? - Indagou preocupada antes de se servir.
- Ah, esse era o café da manhã do Todoroki hoje, mas ele não aguentou comer tudo.
- Hum… - Sua mãe cantarolou em resposta à meia verdade. - E quem te deu a torta?
Izuku sorriu cansado perante o interrogatório.
- Foi o Monoma que comprou para mim no intervalo da escola.
- Ah, tem certeza que ainda está boa? Deve ter passado bastante tempo, pode ter estragado!
- Não se preocupe! Eu deixei na geladeira dos funcionários no serviço, ainda deve dar para comer. - Respondeu ele animado.
- Claro… - Inko abaixou a cabeça com um olhar melancólico.
Izuku fitou-a curiosamente ao mastigar a comida, estava visivelmente preocupada com algo; já ia lhe perguntar quando sua mãe abriu novamente a boca.
- Filho… olha, eu entendo que tem o direito de sair com quem bem quiser, os cortejos também sempre acabam vindo a calhar vez ou outra, mas… fico preocupada por você.
O sardento ergueu uma sobrancelha, confuso.
- Por quê? - Perguntou ainda de boca cheia.
- É só que… você sabe, não dá para confiar em qualquer um por aí, tenho medo de que possa se envolver com as pessoas erradas.
Izuku abaixou os olhos tristonhos, o rumo da conversa quase o fez perder o apetite.
- E-eu não quero te preocupar… mas também não quero ter que depender de ninguém para sempre. Só queria poder viver por mim mesmo, entende?
Inko pausou.
- É claro, querido. Mas não sei se sair com tantos cortesãos ainda pode ser bom para você… Será que não conseguiria escolher algum? Você sabe… alguém exclusivo.
O esverdeado quase engasgou com a comida à pergunta, sua mãe deu uns tapinhas de leve em suas costas até que parasse de tossir.
- Como é que é? - Falou sem fôlego.
- Desculpe… não quis ser invasiva.
Seu filho pausou em ponderação por um momento antes de responder.
- Talvez um dia… Se for para escolher um parceiro, tem que ser pra vida toda. Preciso escolher a pessoa certa.
Inko sorriu de leve, um pouco mais aliviada.
- Fico feliz que pense assim.
O garoto sorriu em retorno e voltaram a comer, mudando de assunto no percurso. Izuku nunca realmente sentiu-se atraído por ninguém dessa forma, nem por nenhum de seus cortesãos, mas também não era como se os estivesse usando por maldade, tinha seus motivos.
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