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Até a Próxima Encarnação

Cerca de três dias se passaram desde a notícia de que Katsuki teria que se mudar; Izuku não podia culpá-lo, entendia os motivos para ter de fazer aquilo, mas era uma decisão difícil para si mesmo.

Amava Kacchan, ao mesmo tempo que amava seus amigos e família; por mais que quisesse ficar ao lado do amor de sua vida, aquele que já fez tanto para mudar e investir em seu relacionamento, também não conseguia deixar para trás a vida que tinha em Mustafu.

Conhecia as consequências de deixar sua alma gêmea para trás e não suportaria o fardo de saber que Katsuki voltaria a sentir os efeitos da maldição bem como teria de se encontrar com outras pessoas para não definhar até a morte; sinceramente não tinha certeza se ele seguiria em frente sabendo que ainda poderia ter o esverdeado pois via como Kacchan o ama, então tinha medo também de que o íncubo poderia se deixar chegar ao limite.

Tudo indicava qual seria a escolha mais sensata mas, agora que sua vida estava se alinhando, com um emprego que ama, amigos que o apreciam e uma nova adição à sua família que o deixa realmente feliz, Izuku não sabia se conseguiria deixar tudo aquilo para trás e recomeçar do zero num lugar de todo desconhecido.

Levou vários anos para que tivesse seus primeiros amigos de verdade, não sabia se encontraria mais alguém como Uraraka, Iida ou Todoroki, sem mencionar seu novo padrasto e sua mãe…

- Midoriya…? Ei, Midoriya.

O chamado e a mão acenando em seu rosto fizeram-no voltar à realidade.

O esverdeado olhou pro bicolor à sua frente na mesa de lanchonete que fitava-o preocupado.

- Desculpe, Todoroki… o que estava dizendo? - Izuku sorriu constrangido.

- Você anda bem distraído, ultimamente… Tem algo te incomodando?

O sardento pausou.

- É só que… o Kacchan vai se mudar, nos próximos dias. - Respondeu devagar.

- Ah, claro… a imigração. Sim, todos nós precisamos passar por isso, de tempos em tempos.

- Eu não sei o que fazer, Todoroki! Ele quer me levar junto e eu amo o Kacchan, mas também amo a vida que eu tenho aqui…

- Mas qual a dificuldade? - O bicolor falou naturalmente, surpreendendo seu amigo esverdeado.

Izuku piscou algumas vezes antes de abrir a boca.

- Hã…?

- Sei que para você deve ser mais difícil, às vezes grandes mudanças podem intimidar um pouco, ainda mais para vocês humanos, mas fazem parte da vida. - Shouto deu de ombros. - Além do quê, você conhece as consequências de deixar o Katsuki para trás, não é?

O esverdeado se calou; Todoroki estava mais do que certo, não tinha como contrariar.

- Você vai ficar bem, Midoriya… se não conseguir conhecer ninguém novo em… seja lá aonde vocês vão, sempre terá o Katsuki, mas, se ainda se sentir inseguro, quem sabe um amigo não possa te acompanhar?

Izuku soltou um riso sarcástico.

- E quem poderia fazer isso? Não acho que… - Este se calou em meio à frase ao notar o sorriso sugestivo do amigo. - Não…

O bicolor deu de ombros.

- Também está chegando a minha hora de partir… Posso me mudar para sua vizinhança, assim você não se sentirá tão sozinho.

- Ai, Todoroki… - Izuku suspirou acanhado. - Você é bom demais para mim.

Shouto sorriu ao elogio.

- Suponho que isso seja um “sim”.

- A-acho que o Kacchan não vai gostar da ideia…

- Ele vai ter que se acostumar.

Izuku sorriu com olhos brilhantes.

- Não quero sujeitar ninguém a situações desconfortáveis… mas sei como você admira o Kacchan… Talvez ele aprenda a se acostumar. - Falou baixinho.

O bicolor sorriu de lado.

- Você é mesmo um bom observador. Nesse caso, quando é a mudança?

O esverdeado sorriu em compreensão; Katsuki definitivamente não ia gostar da ideia, mas Todoroki facilitaria bastante a experiência, sem mencionar que já estava na hora de aproximar aqueles dois um pouco mais.

- Está fora de cogitação. - Bakugou falou ranzinza para o descontentamento do namorado.

Izuku anunciou a “grande notícia” ao chegar em casa; o loiro obviamente ficou feliz em saber da decisão do esverdeado, até ouvir a parte sobre Shouto.

- Qual é, Kacchan! Não conhecemos ninguém em Otheon mesmo. Se o Todoroki for com a gente, vamos ter alguma companhia. - Izuku choramingou em retorno.

Bakugou segurou a própria testa e suspirou impaciente.

- Você quer tanto assim que ele vá com a gente?

- Quero… Sei que sempre vou ter o Kacchan, mas já estou deixando toda a minha vida para trás, aqui em Mustafu. Seria bom poder levar ao menos um pouco disso comigo…

A expressão de Katsuki suavizou.

- Não posso dizer “não” quando você fala assim… Tudo bem. - Cedeu.

- Mesmo?! - Izuku sorriu radiante.

- O que você não pede chorando que eu não faço sorrindo? - O cupido revirou os olhos, irritado.

- Obrigado, Kacchan! - Exclamou o esverdeado ao pular no pescoço do namorado num abraço.

- Claro, mas vai ficar me devendo essa. - Katsuki arqueou uma sobrancelha de modo sugestivo.

O menor riu divertidamente do fundo da garganta.

- Se for só isso, você sabe que eu não vou negar… mas eu devia te contar que o Todoroki te admira muito, sabia?

O íncubo pausou.

- Eu já imaginava.

- Hã? Então por quê não gosta dele…? Não pode retribuir o sentimento?

- Não é bem isso; talvez fosse no começo, mas nunca o odiei. Sei que eu posso passar a ideia errada, é só que fico meio competitivo, às vezes…

Izuku sorriu em compreensão e soltou o pescoço do cupido devagar.

- Não precisa competir com o Todoroki, Kacchan, nenhum de vocês tem o que ganhar com isso, até ele já percebeu… Eu só queria que vocês dois se entendessem.

- É só isso o que vê? - Disse Katsuki melancólico, confundindo o pequeno com suas palavras. - Ele te conhece há mais tempo, sem mencionar que foi ele quem te acolheu e apoiou no momento que mais precisou, e o que eu fiz naquela época?

Izuku olhou-o com pena e uma pontada de impaciência.

- Você ainda se preocupa com isso?

- Nunca vou superar o que eu fiz, já te disse. Nós dois sabemos que eu estava mais do que errado em te tratar daquele jeito. - Katsuki acariciou seus cachos verdes atrás da orelha ao dizer aquilo.

Izuku sorriu de leve.

- Kacchan… eu já fiz a minha escolha e estou bem feliz com ela, inclusive já te perdoei, isso não é o suficiente? Às vezes gostaria que fosse mais gentil consigo mesmo.

- E eu gostaria de poder ver em mim o mesmo que você vê. - Bakugou abaixou os olhos.

- Não sei como pensa tão pouco de si mesmo, você é incrível! E, mesmo que não consiga ver isso, vou te lembrar todos os dias… até meu último suspiro.

O íncubo encarou-o espantado.

- Não diga isso… não quero me lembrar.

- Está certo… sinto muito. - O esverdeado fechou os olhos com um sorriso sereno e deixou Kacchan se aproximar para um longo beijo.

Nada mais importava, só o aqui e o agora, vivendo um dia de cada vez ao lado do outro até o fim…

- - -

Em um hospital no interior do Japão, uma garoa fina caía do lado de fora, regando a vegetação do campo em volta. Cerca de 70 anos se passaram e o casal resolveu se mudar de volta para uma cidade pacata, um lugar mais tranquilo onde Izuku, agora em idade avançada, pudesse descansar melhor e descontrair um pouco.

Hoje não era o melhor dia de todos por assim dizer, pois Izuku estava internado, se agarrando aos seus últimos momentos de vida para que pudesse se despedir e passar o pouco tempo que lhe resta com seus entes queridos.

Katsuki se debruçava sobre seu corpo enrugado, acariciando seus cachos que agora perderam toda a cor e embranqueceram, chorando pela impotência e a perda iminente. Os médicos já fizeram tudo o que podiam, mas não era mais possível ajudar o caso de Izuku, estava em seu limite.

Alguns outros se encontravam no recinto: Mitsuki, Shouto, Touya e dois de seus filhos, Kirishima, Mina, Sero e Himiko; Mori, Hana e os outros amigos de Katsuki queriam estar presentes, mas infelizmente ainda tinham de cumprir com seu dever de cupido.

- Há tantos de vocês aqui… quase não cabem no quarto. - Riu o velho senhor, sua voz grave e rouca pela idade.

- Izuku… - Katsuki negou com a cabeça.

- Está tudo bem, Kacchan… Eu sinto muito que tenha que sofrer com a maldição sem mim por perto, mas ainda vamos nos encontrar de novo, certo…? Numa outra vida.

O íncubo fungou e se afastou devagar, pousando a mão sobre o peito de Izuku e sentindo os batimentos fracos.

- Não tem mais nada que possa ser feito? - Sussurrou.

- Você ouviu os médicos, eles já fizeram tudo o possível. - Disse Mitsuki.

- Tem que ter alguma coisa! - Katsuki vociferou.

- Querido, sei que é difícil, mas você precisa deixá-lo ir. - Sua mãe raciocinou.

- Não é possível, eu vou buscar os médicos! - O loiro se levantou em direção à porta.

Seus amigos tentaram chamá-lo, mas Katsuki só parou ao ouvir a voz da alma gêmea.

- Kacchan… Esqueça… não tem mais o que fazer.

- Izuku-

- Por favor, fique aqui… - O velho interrompeu o cupido antes que pudesse argumentar. - Eu já estou no meu limite… então fique do meu lado, está bem? Até o último suspiro.

O íncubo se aproximou devagar e sentou de volta ao seu lado no colchão, tomando a mão fraca que Izuku estendeu em sua direção.

- Meu querido Kacchan… preciso que me prometa uma coisa.

Bakugou assentiu com firmeza.

- Qualquer coisa! - Disse com voz embargada.

- Tente ser gentil consigo mesmo… - As palavras de Izuku pegaram-no desprevenido. - Você nunca se perdoou, não é…? Mas eu não me arrependo de nada. Já deixei para trás tudo o que passamos no começo… afinal minha vida ao seu lado foi melhor do que eu poderia pedir… por isso quero que você também deixe essa culpa para trás.

O íncubo assentiu devagar.

- Tudo bem… por você.

Izuku sorriu cansado.

- Ainda vamos nos encontrar de novo… Numa próxima vida, você vai ter a chance de fazer o certo do início, então não se preocupe. Lembre-se que, apesar de tudo, eu vou sempre te amar… até… o fim da…

O cupido entrou em pânico e seu coração apertou; as vozes em prantos já zumbiam em seus ouvidos quando sentiu o corpo de Izuku desmoronar debaixo de seu toque e o monitor ao lado indicou que o coração parara de bater.

Todos no quarto estavam paralisados pelo choque, foi um longo momento até alguém tomar uma atitude.

Quando Katsuki já não suportava mais a dor em seu peito, deixou as lágrimas fluírem e chorou. Chorou pela dor dos corações que partiu e pela perda de seu amado.

Os outros súcubos na sala apenas ficaram em silêncio e observaram em remorso; alguns deles até já conheciam bem aquela cena, afinal passaram pelo mesmo com suas próprias almas gêmeas.

Midoriya ainda renasceria e daria continuidade ao ciclo mas, no momento, doía, e como doía.

Foram vários anos até Bakugou se acostumar com a ideia, ainda visitava o túmulo de Izuku ao menos duas vezes ao ano: uma em seu aniversário e outra no aniversário de morte.

Seus amigos estavam finalmente podendo se preocupar menos pois Katsuki estava, aos poucos, voltando a si e seguindo em frente, esperando ansioso para reencontrar a próxima encarnação da alma gêmea.

Naquele dia nublado, o grupo visitava o túmulo de Izuku no dia de seu aniversário; ao menos duas décadas se passaram e a alma que habitava aquele corpo certamente já havia reencarnado, mas sempre faziam questão de prestar luto e desejar um breve reencontro.

Katsuki sentiu uma mão em seu ombro e olhou para cima, se deparando com o rosto de Eijirou.

- Já estamos indo. - Anunciou o ruivo. - Você vai ficar mais um pouco, certo?

Seu amigo assentiu.

- Você sabe.

- Tudo bem, só não vá demorar; parece que vai chover. - Kirishima acenou em despedida.

O grupo se distanciou, conversando sobre o amigo que ficou para trás.

- O Katsuki parece não ter lidado muito bem com a morte do Midoriya, não acham? - Apontou Mina.

- Cada um lida com suas dores do seu jeito, não podemos julgar. - Repreendeu Kirishima. - O Katsubro sempre pensou muito pouco dos humanos antes de encontrar a alma gêmea mas, o que eu posso dizer? O Midoriya era mesmo especial…

- E não podemos negar que fez maravilhas. - Kyouka intrometeu-se. - O Katsuki até parou de “brincar” com os corações dos humanos, os casais que une agora estão começando a dar certo, até os efeitos da maldição parecem mais leves para ele.

- É, fico feliz que também tenha aprendido a lidar com a morte do Midoriya. - Comentou Sero. - Mal posso esperar para ver como ele está agora, já está na hora de reencarnar.

- Pois é, espero que eles se reencontrem logo. - Disse Eijirou distraído.

Katsuki esperou até que o grupo estivesse fora de alcance para que pudesse dar início ao seu velho costume. Não era como se não soubesse que seus amigos tivessem percebido, só ficava constrangido de conversar com um túmulo na sua frente e eles entendiam.

- Já se passaram uns vinte anos, hein? Eu já não aguento mais essa espera… quero muito poder te reencontrar, está sendo difícil sem você, Izuku… Você foi a melhor coisa que me aconteceu… Acho que ficaria feliz em ver como eu estou hoje, por isso, por favor, volte logo. - O cupido limpou uma lágrima solitária que escorreu de seu olho com um sorriso. - Sabe, eu odeio me deitar com qualquer humano que não seja você, mas não tenho escolha, e sei que você não iria querer que eu me entregasse assim tão fácil só porque não está mais aqui… Me sinto meio idiota por falar com um túmulo vazio, você já deve ter reencarnado… e eu mal posso esperar para te conhecer nesta vida.

Descendo as escadas em direção aos portões do cemitério, Katsuki se deparou com um jovem alto de ondulados cabelos negros indo na direção contrária; ambos sorriram um pro outro como cumprimento, até Katsuki sentir algo terrivelmente familiar nele ao se aproximarem e paralisou no lugar.

O jovem encarou confuso a expressão atordoada do loiro; quando estava perto o suficiente, Katsuki agarrou seu braço, assustando-o. Foi um momento até o íncubo se dar conta do que estava fazendo.

- A-ah! Desculpa, achei que fosse… outra pessoa. - Katsuki balbuciou ao soltar o braço do menor.

O jovem moreno fitou-o curioso por um momento até abrir a boca para falar.

- É recente? - Perguntou com voz suave.

- Ah- não muito, só que… é difícil aceitar, sabe?

O moreno abaixou a cabeça.

- Eu entendo…

Vendo sua deixa, Katsuki continuou o discurso.

- E quanto a você? Nunca te vi por aqui antes.

- É um pouco recente, sim…

- Eu sinto muito.

- Igualmente. Você parecia gostar mesmo dele.

- Bom, estou superando… - O cupido sorriu de leve.

O jovem fitou-o curioso.

- Então você costuma visitar o cemitério com muita frequência?

- Bom… sim, ao menos duas vezes ao ano… Hoje seria o seu aniversário. - Explicou com um sorriso sereno.

- Mesmo? Que coincidência.

- Hã? - Bakugou resmungou confuso.

- Bem… hoje- é… - O mais jovem hesitou e engoliu um seco. - Hoje também é o meu aniversário.

- E você veio visitar o cemitério justo neste dia? - O íncubo indagou preocupado, mas o garoto apenas se calou e encarou o chão com dor no olhar; Bakugou suspirou inaudível. - Nesse caso… parabéns! Se quiser, podemos fazer algo juntos depois daqui, o que acha? Por minha conta.

O mais baixo pensou na oferta; não sabia se deveria aceitar comemorar seu aniversário com um estranho que acaba de conhecer, mas talvez fosse melhor do que passar justo esse dia se lamentando sozinho. Após um curto momento de reflexão, este se pronunciou.

- Acho que tudo bem… Obrigado.

O íncubo sorriu.

- A propósito, qual o seu nome?

- Mikumo… Akatani.

- É um prazer! Meu nome é Katsuki.

Fim.

Nota Autoral

Ent chegamos ao fim! Eu gostaria de ter escrito alguns outros detalhes neste cap, mas ñ deu p espremer td ToT

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