
(Des)ilusões Amorosas
*Soba: Um tipo de macarrão japonês, Shouto é dito gostar do tipo de soba que se come frio.
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O grupo de amigos ficou encarando sem acreditar; ter qualquer tipo de contato com o Enigma da sua geração não passava de um sonho distante para qualquer um, no fim, lá estavam eles em frente ao homem que vos fala, perto o suficiente para falar com ele pessoalmente! Um privilégio com o qual muitos só podiam sonhar.
Izuku, por sua vez, sentiu-se voltando à estaca zero, seus olhos brilhando em admiração; já estava começando a se conformar com a possibilidade de nunca mais ver o Enigma em sua vida, enfim, lá estava ele, perto o suficiente para poder tocá-lo, bastava esticar o braço.
Um momento se passou enquanto os três amigos se recuperavam do choque, ninguém conseguiu se fazer dizer nada até o homenzarrão quebrar o silêncio.
- Boa noite, sou Enji Todoroki, é um prazer. Vocês devem ser amigos do Shouto, não é? - Saudou com voz grave, fazendo os visitantes estremecerem.
- B-boa noite, senhor Enig- Todoroki! Sou Ochako Uraraka, o prazer é todo meu! - A castanha respondeu quase aos gritos com voz esganiçada e uma reverência rígida, claramente atordoada.
- Não vai desmaiar de novo, né, Uraraka? - Indagou o bicolor monótono.
- Então… você é o senhor Todoroki? Não imaginava que fosse o Enigma, que honra! - Iida falou admirado, fazendo seu amigo revirar os olhos heterocromáticos. - A-ah! Que grosseria a minha… Sou Tenya Iida, é um prazer enorme, senhor Todoroki! - Complementou com uma longa reverência.
- Não precisa dessa formalidade; ouvi falar umas coisas sobre vocês e agradeço mesmo por serem tão bons amigos pro meu filho. - Enji sorriu de leve, fazendo o Alfa corar ao elogio, então virou-se pro Ômega que permanecia em silêncio atrás do grupo com cara de paisagem. - E você… deve ser Izuku Midoriya, correto?
O esverdeado sobressaltou ao chamado, acordando de volta pro mundo real.
- S-sim, senhor Todoroki…! É um prazer! - Exclamou ele com uma reverência.
- O prazer é meu… fico contente em podermos nos apresentar formalmente, Shouto falou ótimas coisas sobre você. - Enji esboçou um sorriso que quase fez Izuku derreter, suas palavras, no entanto, pegaram o bicolor desprevenido.
- Por quê não vamos andando? O jantar vai esfriar. - Sugeriu ele como pretexto para escapar daquela conversa.
- Claro, vamos nos sentar. - Concordou o senhor Todoroki ao guiar o caminho para a sala de jantar.
Não era como se Shouto sentisse vergonha dos seus amigos ou não quisesse falar sobre eles com sua família, só não queria deixar tão óbvio a “quedinha” que sentia por Midoriya.
Em certo ponto, a meio caminho, o bicolor sentiu um puxão na manga da camisa e alguém chamou sua atenção.
- Psiu… Ei, Todoroki! - Uraraka sibilou para ele. - Por que nunca contou que o seu pai é o Enigma?
Aparentemente incomodado com o assunto, Todoroki deu uma olhada de relance aos seus familiares para garantir que não tivessem ouvido, no entanto, ambos pareciam concentrados demais em meio à conversa sobre a viagem de Enji. O bicolor então voltou-se para a Beta.
- Não é como se fosse importante… - Resmungou num murmúrio.
Suas palavras confundiram o grupo de amigos.
- Está brincando…? Ele é o Enigma! Isso é realmente-
- Não é por ser o Enigma que, necessariamente, signifique que ele é perfeito. - Shouto cortou o discurso de Iida antes que este conseguisse piorar o seu humor, pondo um ponto final àquela discussão.
Seus amigos calaram-se contrariados e confusos, Izuku, por sua vez, sentiu-se dividido: por um lado, sua obsessão repentina pelo senhor Todoroki falava bem alto, realmente nunca sentiu-se daquela forma antes por qualquer um que fosse; seus cortesãos não passavam de encontros casuais completamente sem benefícios, mas Enji… mudou completamente a sua crença de que nunca se apaixonaria; por outro lado, sentia-se no dever de defender o amigo, afinal já ouvira falar sobre a antiga situação na residência Todoroki, e via com seus próprios olhos como o comportamento do genitor deixou sequelas entre a família inteira até os dias atuais.
Não é como se não soubesse quem deveria defender, no entanto, não podia deixar de desejar uma chance de conhecer melhor o Enigma por quem se apaixonou e o novo homem para o qual estava trabalhando em se tornar.
Chegando à sala de jantar, se depararam com a mesa farta já posta, de repente, Enji virou-se para Fuyumi antes que pudessem sentar.
- O Touya e o Natsu não vêm comer com a gente? - Indagou com voz suave.
A Ômega hesitou.
- Ah… pode ser que não… - Confessou devagar com um sorriso melancólico.
O Enigma expressou seu desapontamento brevemente, mas logo recompôs-se.
- Entendo. - Disse plenamente ao se dirigir ao assento da ponta.
Não queria ficar se martirizando, seus filhos tinham motivos justos para não comparecerem e entendia muito bem.
Logo, todos tomaram seus lugares e serviram-se do jantar, Uraraka já estava terminando a primeira tigela enquanto os outros ainda estavam na metade.
- Vai querer repetir, Uraraka? - Fuyumi indagou para a surpresa da Beta.
- Ah-! Posso mesmo…? - Perguntou hesitante.
- Claro! Tem de sobra. - A Ômega confirmou com um sorriso radiante, quase cegando Uraraka com seu brilho.
- Obrigada! - Disse emocionada.
Seus amigos sorriram em compreensão, tendo pleno conhecimento da situação financeira da castanha.
- Então, como foi o dia, hoje? - Enji perguntou de súbito.
Os adolescentes na mesa sobressaltaram-se nos assentos, surpresos pelo Enigma estar se dirigindo a todos sem exceção, Todoroki, no entanto, manteve uma expressão neutra e permaneceu calado.
Fuyumi foi a primeira a se pronunciar.
- Ah, o mesmo de sempre na administração da escola, nada de novo. - Abanou a mão em sinal de “não é tão importante”.
- Entendi… e como foi a escola para vocês? - Dirigiu-se a Shouto e seus amigos, deixando o grupo ainda mais nervoso à pergunta direta.
Antes que os amigos do bicolor conseguissem formular uma resposta coerente, este abriu a boca.
- Nada de novo. - Disse plenamente.
Seus amigos fitaram-no curiosamente enquanto que Enji tentava conter a mágoa em seu rosto, no entanto, Uraraka já estava abrindo a boca para desmentir o comentário.
- Botar fogo na mesa da sala de ciências é “nada de novo”...? - Indagou devagar em tom divertido.
Fuyumi e Enji, que estavam por fora da conversa, arregalaram os olhos, preocupados enquanto que os adolescentes, com exceção de Shouto, riam baixinho.
- O quê? - Indagou o Enigma alarmado.
- Ah, não foi nada demais! Foi resolvido logo… - Uraraka falhou em conter o riso à lembrança.
- É mesmo…? E como foi isso? - Perguntou o genitor preocupado.
- Ah, é que precisávamos de um maçarico para o nosso projeto de química, mas estava em falta, por isso sugeri encher um becker com álcool e acender para esquentar o líquido… talvez não tenha sido a melhor ideia, no final… - Iida confessou com um risinho nervoso.
- É verdade! Se soubéssemos que o Kaminari teria a brilhante ideia de cutucar o copo, teria sido melhor deixar para terminar depois. - Riu o Ômega esverdeado.
- Ele derrubou em alguém? - Fuyumi indagou preocupada.
Izuku balançou a cabeça negativamente.
- Só na mesa de mármore e, como o professor estava fora, não tínhamos muitas opções para tentar apagar. - Explicou com um ronco para tentar conter o riso.
- Conseguiram apagar? - Enji, que se via cada vez mais confuso à reação dos adolescentes, ergueu uma sobrancelha ao perguntar.
Iida abriu a boca enquanto seus amigos riam.
- Bom… sim, pode se dizer que o Satou tem um pulmão bem forte! - Disse ao secar uma lágrima que brotava debaixo do óculos de tanto rir, Midoriya e Uraraka uniram-se a ele.
- Mentira! - Fuyumi exalou surpresa ao seguir a deixa. - Deve ter sido uma situação bem engraçada!
Shouto pausou, chupando os fios de soba* por entre os lábios enquanto observava seus amigos e a irmã caírem na gargalhada e sorriu com um sentimento reconfortante no peito enquanto mastigava o macarrão; adorava vivenciar momentos assim, só não se uniria a eles desta vez, não na presença de seu pai.
- Entendo… espero que ninguém tenha se machucado, no final das contas. - Enji se pronunciou ao fim das risadas, ainda com certo receio em seu tom.
- Não precisa se preocupar, senhor Todoroki! Todos estamos bem. - Izuku abanou a mão em sua direção, sinalizando para relaxar. - Fora o Kaminari que levou uma suspensão… - Completou ao coçar a têmpora, acanhado.
- Ah, sinto muito pelo garoto, mas que bom que a escola tomou alguma atitude. - Comentou Enji.
- Seria difícil a UA deixar passar o começo de um incêndio numa sala de aula, mesmo que por acidente. - Iida raciocinou com um sorriso, um tom de orgulho podia se notar em sua voz.
- Realmente… - Enji mencionou ao sorrir pro filho caçula. - Foi mesmo uma boa escolha ter entrado pra UA, hein, Shouto?
- Claro. - Respondeu o bicolor plenamente no que todos voltaram a se servir.
Em meio ao breve silêncio repentino, seus olhos heterocromáticos buscaram Midoriya automaticamente e foi aí que notou o sorriso acanhado em seu rosto, lançando olhares sorrateiros para o genitor com um leve rubor em seu rosto sardento; Shouto arqueou uma sobrancelha, não poderia ser o que estava pensando… certo? De toda forma, a ideia quase o fez perder o apetite.
Ao fim do jantar, os anfitriões acompanharam os amigos de Shouto à porta de entrada para se despedirem, somente Touya e Natsu não compareceram; o primogênito poderia ter feito um esforço pelo Ômega que cortejava, mas, convenhamos, não era motivo o suficiente para aparecer na frente do pai.
- Façam uma boa viagem de volta para casa! - Fuyumi exclamou em direção ao grupo que partia em direção à estação de metrô.
- Estamos indo! - Os adolescentes acenaram em retorno em meio ao caminho.
Assim que estavam fora de vista e, dentro dos portões da residência Todoroki, o genitor não pôde evitar perguntar.
- Ei, Shouto… por que aquele garoto, o Midoriya, usa uniforme feminino?
Suas palavras confundiram o bicolor, que ergueu uma sobrancelha acusatória em sua direção.
- Hum…?
- Não estou julgando, é só por curiosidade. - Enji explicou naturalmente.
Shouto hesitou por um momento antes de confessar.
- Não tenho certeza… não costumamos falar sobre isso, mas talvez seja para impressionar seus cortesãos.
- Certo. - Disse o Enigma plenamente.
Era estranho e nenhum deles confessaria em voz alta, mas aquela breve troca de palavras deixou ambos de certo impressionados, Shouto por não ouvir nenhum comentário desnecessário, e Enji por receber uma resposta franca e genuína do filho para variar, afinal, geralmente o caçula costumava ficar bem monossilábico perto do pai, não que não tivesse o direito…
Os adolescentes voltaram à rotina costumeira no dia seguinte, assim que avistou o pequeno Ômega na sala de armários, Shouto aproximou-se para cumprimentá-lo.
- Bom dia, Midoriya. - Disse com um sorriso ao abrir o próprio armário ao lado, mas não obteve resposta.
O bicolor fitou-o com curiosidade, Izuku não se movia, apenas encarava seu par de tênis vermelhos dentro do armário aberto com cara de paisagem; Shouto arqueou uma sobrancelha impaciente e acenou a mão em frente ao seu rosto sardento.
- Mi-do-ri-ya. - Chamou uma segunda vez, trazendo o amigo de volta ao mundo real num susto.
- A-ah! Todoroki…? - Izuku sobressaltou e virou-se confuso para o bicolor.
- Bom dia… O que ocupa sua mente, nesta manhã? - Indagou ele ao trocar os All Star pelos sapatos da escola.
- B-bom dia… Desculpe, é só que… - O Ômega divagou, tendo o bicolor fitando-o intensamente à espera de uma resposta. - É-é um assunto pessoal…
Shouto semicerrou as pálpebras, desapontado, desta vez estava crente de que teria uma explicação clara para o que andava atormentando Midoriya nas últimas semanas, se bem que, desta vez, não precisava deixar mais explícito, já havia decifrado.
- Midoriya… - Chamou novamente ao fechar a porta do seu armário. - Por acaso… você se encontrou com meu velho alguma vez antes do jantar lá em casa ontem?
A pergunta repentina surpreendeu o Ômega que escaneou os arredores com os olhos para garantir que ninguém tivesse ouvido aquela acusação implícita.
- Bom, na verdade… - Começou, a súbita pausa fez Shouto pensar o pior. Suas próximas palavras, no entanto, deixaram-no ligeiramente mais aliviado. - Ele passou na Wild, Wild Pussycats faz um tempo… pediu umas tortas para viagem… - Explicou corado.
Shouto hesitou por um momento com algo pairando em mente.
- Foi só isso? Como se lembra de algo tão banal?
Aquela segunda dose de acusação deixou o Ômega ainda mais desconfortável; não queria entregar na cara dura, não para Todoroki de todas as pessoas, por isso pensou rápido numa desculpa plausível.
- Bom… não é todo dia que se vê o Enigma por aí… - Falou devagar.
- Claro… - Disse Shouto com uma incredulidade aparente na voz, mas, apesar dos ciúmes, não arriscaria afugentar Midoriya assim tão fácil, por isso achou sensato parar de insistir no assunto. - Vamos indo? O primeiro sinal já deve tocar daqui há pouco.
- Ah, claro… - Izuku concordou ao seguir o amigo à sala A, divagando uma vez mais em meio ao trajeto, até ignorou todos os cortesãos que tentaram se aproximar, completamente perdido no mundo dos sonhos, o suficiente para Shouto ter de pegar em sua mão e guiá-lo pelo caminho antes que esbarrasse em alguém ou desse de cara com uma parede.
Não podia conter os ciúmes e fúria crescendo dentro de si; primeiro seu irmão, agora seu pai e, desta vez, parecia mesmo ir muito além dos encontros casuais que Midoriya geralmente tinha. Só esperava Shouto que seu velho tivesse o senso comum de negar Midoriya, mesmo que sua “quedinha” pelo Ômega fosse de certo um segredo, não suportaria a dor de perdê-lo de vez, e justo para Enji…
Até então, Shouto aturava os cortesãos de Midoriya pois tinha plena consciência de que eram encontros casuais e facilmente descartáveis e, mesmo que talvez nunca fosse ter uma chance com sua paixão por si mesmo, não suportaria vê-lo nos braços daquele que mais desprezava e que ainda destruiu sua família.
Nota Autoral
Queria eu estar exagerando, a cena do becker c álcool realmente aconteceu! Eu estava lá XD
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