
Entre Aliados e Rivais
*Yakuza: Máfia japonesa, seus membros são geralmente reconhecidos por usarem tatuagens.
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Algo estava fora do comum e seus amigos perceberam; desde a noite de estudos na casa dos Todoroki, Midoriya havia voltado a ficar muito distraído em seus devaneios, o que deixou bem claro o motivo para ter entrado naquele transe constante em primeiro lugar.
Não sabiam o que pensar da ideia do Ômega que tanto amam com o Enigma, talvez faria sentido visto como Enji é tão poderoso e respeitado enquanto que Izuku é, basicamente, perfeito, muitos podem concordar, só não conseguiam assimilar a ideia do pequeno Ômega ter se apaixonado pelo pai de um de seus amigos mais próximos, este que, assim como tantos outros, estava perdidamente apaixonado por Midoriya; Shouto, por sua vez, sentia-se perdido.
Já não bastasse sua paixão estar saindo com o mais velho de seus irmãos, se fosse para que Midoriya se apaixonasse por alguém para variar, que fosse o próprio Shouto, não seu velho, apesar de que a ideia de perdê-lo para Iida ou Uraraka seria infinitamente mais aceitável. Como poderia seguir em frente assim…? Como poderia voltar a olhar para Midoriya da mesma forma?
Sabia que não podia controlar por quem o Ômega se apaixona, ninguém tinha esse direito; porra, nem o próprio Izuku podia escolher mas, mesmo assim, não conseguia negar aquele pensamento constante de que era injusto para dizer o mínimo.
O resto da semana de aulas parece ter passado como tortura, Izuku estava constantemente perdido em seus devaneios com o Enigma e seguia lançando olhares de relance para o Delta bicolor, como que querendo perguntar-lhe algo sem saber como fazer isso, um comportamento que já estava tirando a todos do sério. O clima entre seu grupo de amigos pesou, só Midoriya não percebia isso, nem que a causa era sua “quedinha” repentina.
Mesmo que seus amigos constantemente tentassem situá-lo no momento, o Ômega ficava a maior parte do tempo de fora das conversas por continuar divagando, já estavam começando a desistir; foi no último dia de aulas da semana que o esverdeado finalmente reuniu coragem para perguntar a Todoroki o que andava preso em sua garganta.
- Ei, Todoroki! - Chamou animado ao se apressar em direção ao Delta, antes que este saísse pela porta da escola. - Hum… eu- queria te perguntar uma coisa…
Seu rosto cicatrizado contorceu de raiva; Midoriya não precisava deixar mais explícito, Shouto já imaginava o que queria, só não entregaria-o nas mãos de Enji assim tão fácil, e o rosto sardento corado e o jeito que o Ômega se remexia sem graça só fazia piorar sua ânsia, afinal podia ter sido qualquer um, mas por que seu pai de todas as pessoas?!
- Desculpe, estou meio apressado para chegar em casa. - Disse plenamente com voz sombria ao se virar para sair, mas Izuku agarrou seu ombro, impedindo-o.
- Todoroki… qual é, isso é importante!
O bicolor virou-se para trás com uma sombra caindo sobre seu rosto cicatrizado, surpreendendo Izuku com sua expressão de repúdio.
- Depois de ter nos ignorado a semana toda, agora é importante? - Sibilou, falhando em conter o ódio em seu tom.
Izuku soltou seu ombro devagar, aquelas palavras atingindo-o como um punhal; de repente percebeu que não andou dando a devida atenção aos amigos desde que conheceu o Enigma. Rapidamente abriu a boca para se desculpar.
- Todoroki, eu-
- Não! - O bicolor interrompeu-o num sussurro. - Isso foi um erro, Midoriya… ser amigo de você foi um erro. Não sei por quê pensei que uma piranha igual a você fosse tratar os amigos de forma diferente de como trata seus cortesãos, tudo o que você sabe fazer é decepcionar!
Aquelas palavras saíram antes que Shouto conseguisse contê-las, ele próprio parecia surpreso com seu comportamento, Midoriya, por sua vez, estava chocado e profundamente magoado, seu peito doía e as primeiras lágrimas ameaçavam brotar de seus olhos; todos ao redor ficaram encarando a cena confusos, era raro ver aqueles dois brigando afinal de contas.
Sabia que tinha passado dos limites e sentiu-se na obrigação de, ao menos, se desculpar mas, antes mesmo que Shouto abrisse a boca, o Ômega passou correndo por ele com lágrimas nos olhos.
Shouto ficou parado no lugar encarando a direção pela qual Midoriya saiu, a plateia de estudantes cochichava à sua volta; não era como se Midoriya não estivesse merecendo um choque de realidade nos últimos dias, mas sabia que talvez não precisasse ter sido tão cruel.
As coisas estavam ficando cada vez mais estranhas nos dias por vir, Izuku recebeu um bombardeio de mensagens de Iida e Uraraka no final de semana, mas nenhum sinal de Todoroki; não queria descontar em mais ninguém, mas não conseguiria respondê-los até resolver as coisas com o bicolor, apenas ignorou o toque incessante do celular e permaneceu deitado na cama, lamentando-se.
Com o retorno às atividades escolares, Izuku se viu distante dos amigos, Iida e Uraraka também tiveram receio de se aproximar, ainda mais depois de não obter resposta por um dia inteiro e não trocar uma só palavra desde que se viram novamente, seu comportamento dos últimos dias também reforçou a decisão de se afastarem, no entanto, todos lançavam olhares sorrateiros um ao outro em meio às aulas, desejando internamente para poderem se aproximar e resolverem isso juntos, Todoroki, no entanto, seguia ignorando qualquer troca de olhares com eles.
No meio da semana, Izuku tomou coragem e deu o primeiro passo, aproximando-se vagarosamente da carteira do bicolor depois do soar do sinal de almoço. Estava claramente desconfortável, mas sentia que Todoroki era o primeiro com quem devia conversar.
O Delta olhou curiosamente para seu rosto sardento todo corado e Izuku abriu a boca, finalmente conseguindo formular uma frase com voz trêmula.
- Olha, Todoroki… sobre o que aconteceu outro dia-
Antes que terminasse a primeira metade da frase, o bicolor levantou e deu as costas ao amigo, surpreendendo-o.
- T-Todoroki?! Espera-!
- Deixa esse cara para lá, Midoriya! Vamos almoçar? Faz um tempo que não saímos juntos. - Shinsou, que adentrou a sala, se meteu no meio, interrompendo o esverdeado que só pôde lançar um olhar piedoso em direção ao amigo.
- Nada disso! Ele vem comigo! - Monoma intrometeu-se logo em seguida, dificultando ainda mais o diálogo dos dois.
- Porra, nem vem, Monoma! Você já teve sua vez antes do cio dele começar. - Rebateu o arroxeado.
Enquanto os dois cortesãos começavam a discutir, Todoroki olhou uma última vez para trás, buscando os olhos de Midoriya, mas sua visão foi bloqueada pela dupla de garotos em sua frente então desistiu, abaixou os olhos heterocromáticos e seguiu com seu caminho.
Não era como se quisesse descontar em Midoriya, mas os acontecimentos recentes enchiam seu peito de uma mágoa profunda e não queria ficar por perto para se lembrar daquela dor, seus cortesãos também não ajudavam. Queria se dizer que precisava de um tempo, mas entendia o quão difícil seria esquecer alguém como ele, até lá, pode ser que seja tarde demais.
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- Sabe, não precisa me acompanhar. - Bakugou raciocinou ao se dirigir ao vestiário masculino com Kirishima seguindo logo atrás.
- Sabe que não é problema para mim. - O Delta insistiu sorridente.
- Só voltei para buscar minha munhequeira, não preciso de ajuda para isso, além do mais, você corre o risco de se encrencar, se atrasar pra aula.
- Ah, para mim é como-
Antes que Kirishima pudesse terminar a frase, avistaram o Ômega esverdeado aguardando do lado de fora dos vestiários, cabisbaixo; o Alfa prontamente fechou a cara no que a expressão de seu amigo iluminou-se à visão à frente.
- Midoriya! Não vai pra aula de educação física hoje? - O chamado do Delta ruivo surpreendeu o Ômega que sobressaltou no lugar.
- Ah- bom… não posso ir, no momento. - Explicou com voz falha.
- Como assim…? Se atrasar pra aula, pode ter problemas. - Disse Kirishima com uma preocupação genuína; Bakugou revirou os olhos, tendo dito exatamente o mesmo pro Delta há poucos minutos atrás.
O Ômega suspirou inaudível.
- Não posso entrar no vestiário. - Explicou vagamente, não querendo entrar em detalhes.
- Mas por q-?
- Decidam o que vão fazer vocês mesmos, só vim buscar minha munhequeira. - Bakugou interrompeu Kirishima ao se dirigir irritado para dentro do vestiário, intimidando Izuku ao passar por ele.
Ao abrir a porta, o Alfa ouviu um estrondo de armário batendo ao fundo e ergueu uma sobrancelha curiosamente; não queria ficar para desvendar o que estava acontecendo, só fazer o que estava lá para fazer e voltar pra aula antes que se atrasasse mais, infelizmente seu armário estava localizado na origem do som. Apenas grunhiu aborrecido e adentrou o vestiário com passos firmes, encontrando o Delta extremamente irritado descontando as frustrações no próprio armário.
Bakugou revirou os olhos e se aproximou; não queria se meter, mas sua boca abriu antes mesmo que conseguisse se conter.
- Só porque é filho de um ricaço, acha que pode destruir a propriedade da escola que o papai vai resolver para você? - Disse indiferentemente ao abrir o próprio armário, surpreendendo Shouto.
- Não espero que um delinquente como você entenda… - Retrucou entre dentes.
Uma veia saltou na têmpora de Bakugou ao ouvir aquilo, mas manteve a compostura.
- E quem disse que eu quero? - Sua voz saiu contida, miseravelmente tentando mascarar a própria raiva.
- Não estou com paciência para perder tempo com você, Bakugou! - Shouto se exaltou num momento raro, fazendo o Alfa perceber que havia algo errado mesmo.
- Isso tudo é só porque você e o Deku brigaram? - Disse casualmente ao pegar a munhequeira em seu armário, completando a tarefa, no entanto, suas palavras deixaram o Delta contrariado.
- Quer repetir isso? - Sussurrou com voz sombria.
- Todoroki… - Bakugou suspirou em exaustão, fechando a porta do armário e virando-se pro Delta. - Já deu para notar a sua “quedinha” pelo Deku.
Todoroki arregalou os olhos, contrariado.
- T-tá, e o que vai fazer com essa informação? - Gaguejou num momento raro.
- Olha, se aquele nerd não vai te explicar porque não dorme com os próprios amigos, acho que eu vou ter que fazer isso, porque eu não aguento mais essa sua TPM. - Disse firmemente, suas palavras apenas enraivecendo o Delta cada vez mais. - Você deve estar sabendo da condição na casa dele, certo…? Filho de uma mãe divorciada que não consegue um emprego por mais que corra atrás, tendo que fazer um bico de meio período para sustentar a casa sozinho… Os meus pais ajudam como podem mas, no fim das contas, acaba não sendo o suficiente.
O bicolor estreitou os olhos em confusão.
- E o que isso tem a ver?
- Porque é por isso que o Deku sai dormindo, basicamente, com todo mundo: os presentes de cortejo sempre acabam vindo a calhar, sendo comida, roupas… porra, alguns otários até compram joias caras para ele, que ele sempre acaba penhorando para sustentar a casa. - Explicou plenamente, chocando o colega com suas palavras. - Se o Deku escolheu não sair com nenhum de vocês, então deviam ficar felizes com isso… ele não se apega fácil e, se escolheu ser amigo de vocês ao invés de levá-los pra cama, é porque prefere mantê-los por perto ao invés de usá-los para depois descartar… porque, para ele, vocês são mais importantes que isso.
Shouto pausou para deixar a informação assentar, então soltou um riso indignado do fundo da garganta ao encontrar a própria voz.
- Você fala do Midoriya como se ele fosse uma puta interesseira.
- Não foi minha intenção. Ele não faz por mal e eu entendo… - Confessou o Alfa.
Tomou um tempo para digerir toda aquela informação; com o conhecimento de que Bakugou era amigo de infância do Midoriya, sabia que podia confiar em suas palavras, só ainda não podia conter a mágoa por Midoriya ter se apaixonado por seu pai dentre tantos outros, ainda mais enquanto saía com seu irmão mais velho… Um único pensamento correu pela cabeça de Shouto naquele momento: “por que não eu?”
- Olha, eu preciso voltar pra aula, então decida o que você vai fazer, só fique sabendo que o Deku está lá fora esperando para usar o vestiário esse tempo todo, afinal não temos nenhum vestiário para Gamas na escola. - Bakugou disse plenamente ao virar para sair, surpreendendo Shouto novamente com suas palavras.
- Espera… o quê? - Indagou alarmado, dando um passo para frente; o Alfa voltou-se para ele uma vez mais.
- O quê…? Nunca desconfiou porquê o Deku não usa o vestiário com nenhum dos outros garotos? - Comentou com um sorriso debochado e uma mão na cintura, fazendo o bicolor fechar a cara em irritação. - Bom, eu entendo que ele não gosta de ficar espalhando por aí, mas achei que ao menos seus amigos fossem perceber… afinal seria perigoso para ele se alguém notar e vocês ficam o encarando o tempo todo.
Shouto não respondeu, apenas abaixou o rosto e ficou encarando o chão, levemente acanhado.
- Faça como quiser, está bem? Eu preciso voltar. - Bakugou falou por fim ao retomar o caminho para fora do vestiário, Shouto seguiu-o com os olhos até suspirar em frustração e caminhar lentamente em direção à porta, avistando Midoriya de relance ao fechá-la, este que aguardava para poder entrar e vestir o uniforme de ginástica.
Ambos surpreenderam-se ao avistar o outro e ficaram se encarando por um momento que pareceu uma eternidade; queriam ter dito algo, mas uma voz no corredor cortou a linha de raciocínio.
- Aí estão vocês, garotos! A aula já começou… não estavam pensando em faltar, estavam? - O Alfa alto e loiro indagou divertidamente com uma mão na cintura.
- A-ah, desculpe, professor Yagi! Eu já estava indo, só tive… um contratempo… - Izuku explicou-se rapidamente, dizendo aquela última parte com um olhar de relance ao amigo.
O professor ergueu uma sobrancelha curiosamente, mas resolveu não comentar.
- Bom, então se troque rápido e venha pro ginásio externo assim que terminar, não quero corpo mole na minha aula, hein? - Yagi avisou o esverdeado.
- Sim, professor Yagi. - Respondeu o sardento de prontidão, se apressando para dentro do vestiário logo em seguida.
O mais velho virou-se para Shouto.
- E você, Todoroki… - Disse com um sorriso sugestivo. - Já que está vestido, o melhor seria me acompanhar até a quadra, não?
Shouto fitou o chão por um momento antes de responder.
- Sim, professor Yagi. - Concordou relutante ao seguir o mentor para fora do prédio escolar.
Até que a aula de educação física serviu para alguma coisa, correr pela quadra e descarregar energia ajudou a esclarecer as ideias e desestressar, fazendo Shouto perceber que realmente não podia escolher por quem Midoriya se apaixona… na verdade nem o próprio; ainda não conseguia digerir o fato do menor ter se apaixonado por seu bendito pai, mas também não podia se meter na vida dos outros.
Ainda desejava que seu velho recusasse Midoriya, mas ainda precisava seguir em frente, ficar insistindo em alguém que não consegue retribuir o sentimento é, de certo modo, uma forma de humilhação; se o esverdeado não podia retribuir o sentimento, ao menos o manteria por perto como amigo, esse era um elo precioso demais para se dar ao luxo de perder.
Ao término das aulas, todos os alunos dirigiram-se para suas respectivas casas; Shouto caminhou em meio à massa de estudantes que conversavam e brincavam no caminho para fora da escola. Ao pisar para fora do portão principal, avistou Midoriya de costas para si ao longe; desta vez não conseguiu se conter, precisava se aproximar e resolver a situação com ele, no entanto, ao se aproximar o suficiente, notou Bakugou de pé em frente ao Ômega, conversando com ele.
O bicolor parou a meio caminho, espremendo os lábios juntos numa linha fina; após a conversa com o Alfa no vestiário, já imaginava sobre o que poderiam estar falando, o que o deixou ainda mais hesitante para se aproximar.
- O que o Deku está fazendo com o Bakugou? - A voz repentina ao seu lado tirou Todoroki do transe, então virou-se para Uraraka. - Eles nem estão brigando? Mas que coisa rara…
- É verdade que isso não é do feitio deles. - Iida comentou ao ajustar os óculos, se aproximando logo depois.
- É… - O bicolor concordou devagar.
- Você sabe o que está acontecendo, Todoroki? - A castanha indagou-lhe diretamente.
Shouto pausou, não tinha a mínima vontade de tocar no assunto.
- Eu não sei. - Mentiu, dando de ombros.
- Hum… - Uraraka resmungou devagar, voltando seus olhos para os dois garotos ao longe.
Antes que alguém tivesse tempo para tomar alguma atitude, uma voz chamando ao fundo desviou a atenção de todos ao portão de entrada onde um homem alto e tatuado de máscara cirúrgica acenava para Midoriya.
- Ah, é o Chisaki… - Comentou o esverdeado antes de se voltar pro Alfa à sua frente. - Depois nos falamos, Kacchan, preciso ir. - Avisou ao se mover para sair.
Mal deu um passo, uma mão agarrando-o por trás fez Izuku parar no lugar.
- Midoriya, espera. - A voz de Iida sussurrou em sua direção. - Aquele cara é da Yakuza*…? Tem certeza de que vai sair com gente assim?
O Ômega sorriu cansado em sua direção, apesar de apreciar a preocupação; finalmente Iida estava falando com ele para variar.
- Obrigado por se preocupar, Iida, mas não precisa! - Raciocinou o esverdeado.
- Infelizmente desta vez eu devo concordar com o quatro-olhos. - Katsuki se pronunciou, contrariando o mais alto.
- Está tudo bem, pessoal! Não é bem como parece. - Izuku insistiu. - Olha, eu falo com vocês depois, tá? Antes que eu me atrase pro trabalho. - Disse por fim ao correr em direção ao líder de facção que o aguardava no portão, deixando seus amigos e uma plateia de curiosos cochichando para trás.
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