
Herói Improvável
*Genkan: Aquelas tradicionais entradas para residências japonesas onde se guardam sapatos.
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A viagem de carro seguiu em silêncio, salvo pelos sons de lábios estalando no banco de trás; enquanto o líder da Shie Hassaikai se distraía com o pequeno Ômega, o motorista e o escolta no banco de passageiro mantinham-se calados, não interferindo de qualquer forma e miseravelmente tentando não prestar atenção à cena que beirava ao erotismo.
Não é como se Izuku não se incomodasse com espectadores, só estava acostumado, principalmente na companhia de Chisaki.
Quando pausaram para respirar, o Alfa riu baixo do fundo da garganta.
- Você parece meio distraído hoje…
Seu comentário deixou Izuku inquieto; suas bochechas esquentaram no que pensava rápido numa explicação plausível.
- É-é só que… algumas coisas andaram acontecendo nos últimos dias… só estou meio sobrecarregado. - Forçou um sorriso tímido.
Chisaki ergueu uma sobrancelha curiosa; claramente tinha mais por trás da resposta vaga de Midoriya, mas estava óbvio que não queria tocar no assunto, por isso resolveu não insistir.
- Certo… Se tem alguma coisa com que eu posso ajudar, pode me pedir, está bem? - O Alfa sorriu, voltando ao seu modo de flerte.
- Vou manter isso em mente. - Izuku riu acanhado.
Ambos se calaram por um curto momento, olhando um pro outro intensamente, então voltaram a se atracar.
Chegando na lanchonete, os Yakuzas mostraram seu lado intimidador e misterioso ao pisar para fora do carro, uma fachada que mantinham em prol das aparências; enrijecendo as posturas, fecharam as caras e ficaram em silêncio absoluto ao passar pelos transeuntes com um andar duro, o que chamava a atenção e deixava qualquer espectador encolhendo no lugar, algo que contrastava com a aparência suave e delicada de Midoriya que, apesar da atmosfera tenebrosa dos seus acompanhantes, mantinha um sorriso radiante no rosto.
Todos desviavam do caminho do grupo que se dirigia pro interior do estabelecimento, Izuku prontamente despediu-se de Chisaki para ir vestir o uniforme enquanto os Yakuzas tomavam seus lugares numa mesa. A caminho do vestiário, o Ômega foi abordado por sua colega de trabalho.
- Esses caras de novo, Midoriya? - Sussurrou nervosa.
- Hã… oi, Hadou. - Cumprimentou ele, confuso.
A Beta botou uma mão na cintura com uma expressão séria que contrastava com sua personalidade.
- Olha, sei que está passando necessidade, mas precisa mesmo aceitar um cortesão da-? Bom… você sabe!
Izuku sorriu cansado.
- Olha, desculpa por trazê-los aqui, mas não precisa se preocupar! - Raciocinou ele.
Hadou revirou os olhos.
- Você sempre diz isso…
- Está tudo bem, Hadou! Eu já falei… não é bem como parece, eu só não posso entrar em detalhes, mas pode confiar em mim nessa!
- Em você eu confio… mas esses caras… - Disse ao lançar um olhar sorrateiro para a mesa onde os Yakuzas já faziam seus pedidos.
- Obrigado por se preocupar, mas não precisa, é sério…! Olha, eu tenho que ir me trocar, está bem? Antes que a Tsuchikawa chame a minha atenção.
- Claro… - Nejire falou devagar de forma impaciente.
Assim que vestiu o uniforme, o Ômega focou suas tarefas do dia na mesa dos gângsteres, um pouco pro alívio de seus colegas, mas não era como se Chisaki aceitaria qualquer garçom fora o Midoriya; Tsuchikawa, por sua vez, não iria contrariar, eram Yakuzas afinal e, apesar da lanchonete ter um bom movimento graças ao Midoriya, não arriscaria qualquer outro funcionário para atender aqueles caras, principalmente dado o fato de que foi o próprio Midoriya quem os levou para sua loja.
Chisaki sempre foi o mais assanhado de seus cortesãos, mesmo em meio ao expediente e na presença de fregueses, o Alfa contrariava os pedidos de Izuku e passava a mão em suas pernas vez ou outra.
- Por favor, Chisaki, aqui não é uma boate… - Pedia o Ômega impaciente.
- Podemos ir para uma depois daqui, que tal? - Convidou o Alfa em tom provocante.
Izuku sorriu cansado.
- Por mais que eu quisesse, você sabe que não vai dar para mim… - Falou devagar.
- Sei como tem um horário apertado, mas bem que poderia se soltar um pouco mais. - Raciocinou Chisaki.
- Não é como se eu tivesse opção… - O Ômega suspirou para se lamentar.
- Claro… mas ainda vai ficar me devendo essa, certo? - O Alfa sorriu de lado, sedutor.
- Você sabe que sim. - Izuku sorriu simpático ao levar a bandeja com louça suja para retirar, suas palavras pareceram agradar o Yakuza.
- É isso o que eu queria ouvir. - Respondeu ele em tom baixo, quase ameaçador como se fosse uma ordem.
Adentrando a cozinha, Izuku se deparou com Nejire preparando uma bandeja com pedidos no que este se dirigia à pia de louça, ambos sorriram um pro outro num cumprimento.
- Aquele Chisaki é bem insistente, hein, Midoriya? - Comentou ela.
Izuku posicionou a louça na pia impacientemente, Hadou não tinha mesmo escrúpulos.
- Talvez ele seja um pouco… sim. - Respondeu devagar.
- É estranho, achei que já tivesse desfeito o contrato com todos os seus cortesãos. - Suas palavras confundiram o Ômega que virou-se para ela, dando plena atenção à colega.
- Como assim?
- Ué, você anda tão distraído nos últimos dias que eu só tive que ligar os pontos… só não imaginava que fosse mesmo reencontrar o Enigma. - Disse divertidamente com uma sobrancelha erguida em sua direção.
Suas palavras surpreenderam o Ômega.
- B-bom-! Na verdade… não é bem assim. - Gaguejou enquanto suava frio.
Nejire riu divertida.
- Então vocês não estão mesmo juntos?
Izuku fitou-a impacientemente.
- Que papo é esse? Eu nunca nem falei direito com… ele. - Disse aquela última parte em tom baixo, acanhado.
- Então… não está? - Insistiu a Beta.
- É claro que não! - Exclamou impaciente.
- Ah, entendi. Bom, isso explica porque ainda está saindo com seus cortesãos, aposto que trocaria todos eles pelo Enigma, não é?
- Pô, Hadou… - Izuku inflou as bochechas, emburrado.
Sua colega riu às suas custas.
- Só estou brincando com você! Mas eu entendo, ele é o Enigma, afinal. - Disse aquela última parte com toda a seriedade e um sorriso compreensivo.
Izuku abaixou os olhos pro chão com um leve rubor nas bochechas, remexendo os dedos na bainha da saia, sem jeito.
- É verdade, não é…? - Falou baixo.
- Vocês dois! - Uma voz exclamando ao longe pegou ambos desprevenidos, viraram-se então pra gerente. - Não têm mais nada para fazer além de conversar no meio do expediente?!
- A-ah! Desculpe, Tsuchikawa! - Izuku falou de prontidão no que Nejire partia para entregar os pedidos, antes que o Ômega pudesse prosseguir com suas próprias tarefas, a Delta chamou-o novamente.
- Midoriya. - Seu tom de voz fez o sangue gelar. - Faça alguma coisa de útil e vá levar o lixo para fora, está bem?
Izuku fitou-a curiosamente e não questionou, apenas assentiu em concordância.
- Pode deixar. - Disse obediente ao ir buscar os sacos de lixo.
Pegou dois sacos em cada mão, uma tarefa um tanto quanto árdua para um Ômega franzino como si, praticamente arrastou tudo até a porta dos fundos e botou o lixo no chão para destrancá-la e abri-la, revelando o beco do outro lado. Assim que pisou do lado de fora, se deparou com a silhueta de Chisaki lhe esperando em meio à escuridão e, apesar de intimidado, o Ômega não deixou se abalar.
- O que veio fazer aqui? - Izuku ergueu uma sobrancelha curiosa.
- O que você acha? - O Alfa indagou de forma retórica ao se aproximar devagar. - Vim pegar minha “recompensa”.
Izuku apenas suspirou com um sorriso cansado e desviou do caminho do Yakuza, levando os sacos de lixo consigo a fim de completar a tarefa.
- Eu já disse… estou em expediente, depois podemos-
Não deu tempo de terminar a frase, Chisaki agarrou seu pulso com força, fazendo-o derrubar o lixo.
- Não pedi sua opinião. - Sibilou de forma ameaçadora.
- Me solta…! - O Ômega pediu com voz trêmula, não conseguindo esconder o pavor crescendo dentro de si.
- Não banque o difícil, você prometeu. - Retrucou o Alfa ao jogar o menor contra a parede.
Izuku ficou aterrorizado, tremendo no lugar ao observar o mais velho remover a máscara cirúrgica, expondo seu sorriso sádico; por um momento, paralisou em meio ao pânico enquanto Chisaki se aproximava mais, passando a mão por entre suas pernas; quando começou a remexer em sua calcinha, o Ômega reagiu, levantando os braços devagar e virando o rosto, negando o beijo forçado no processo, ato esse que só fez piorar a impaciência do Yakuza.
- Vamos, Midoriya, não resista. Seja um bom garoto e abra essas pernas para mim. - Ordenou com voz mórbida, a raiva cada vez mais aparente em seu tom enquanto agarrava a calcinha com força e puxava o tecido que ameaçava rasgar.
Izuku se desesperou, um sentimento gelado e desconfortável se espalhava pelo tórax no que seus olhos arregalavam-se em meio ao terror.
- Não…! Para! - Pediu em desespero ao se debater nos braços do Yakuza que mantinha um aperto firme em si.
O Ômega esperneou na tentativa de escapar e fugir correndo, mas não poderia bater um Alfa no quesito força física; já estava em seus braços, livrar-se era uma missão quase impossível.
Chisaki ficava cada vez mais agressivo ao tentar manter o pequeno preso no lugar, debateram-se tanto que o tecido da calcinha acabou cedendo; Izuku exalou surpreso ao sentir a peça partir debaixo dos dedos de Chisaki e cair aos seus pés. Arregalou os olhos verdes para o sorriso triunfante do Yakuza, este prensou-o contra a parede com uma mão, jogando todo peso de seu corpo para firmar enquanto levava a outra mão para o fecho da própria calça.
Izuku quase gritou e voltou a se debater ainda mais freneticamente na tentativa desesperada de escapar.
- Não! Por favor!! - Exclamava com voz falha em meio às lágrimas.
O Alfa riu baixo de forma sádica.
- O que foi? Não é como se não estivesse acostumado… - Debochou ao desfazer o zíper e começar a remexer no botão da calça, deixando o Ômega mais aterrorizado a cada movimento seu.
Enquanto ambos se debatiam freneticamente na escuridão do beco e Izuku gritava o máximo que sua voz chorosa permitia, alguns transeuntes caminhavam despreocupados pela calçada, um ou outro levantou os olhos à cena, rapidamente desviando o rosto logo em seguida, ignorando-os, foi aí que percebeu que tudo estava perdido, não tinha como escapar daquela situação, a única saída plausível seria se entregar, o que era a última coisa que gostaria de permitir.
- EI!!! - Um urro vindo da entrada do beco fez ambos pararem no lugar, levantando os olhos pra figura alta e musculosa encarando a cena ameaçadoramente. - O que está fazendo com ele?!
Chisaki teria retrucado à altura, no entanto, o almíscar forte e inconfundível chegou às suas narinas, intimidando-o.
Antes que conseguisse formular qualquer frase, a figura poderosa do Enigma deu um passo à frente, fazendo o Alfa encolher no lugar.
- Eu vou pedir só uma vez… Solte-o. - Enji falou com voz sombria.
Chisaki fechou a cara e tentou controlar seu corpo trêmulo; era apenas um Alfa contra o Enigma, ainda assim, não se permitiria abalar tão fácil.
- Se manda, cara, isso não é da sua conta! - Tentou falar firmemente, mas sua voz o traiu.
- Quando se trata da segurança do meu povo, é problema meu, sim! - Exclamou ao se aproximar com passos firmes, fazendo o Alfa soltar Izuku que escorregou pela parede até cair no chão, mal podendo controlar as próprias pernas.
Apesar de intimidado, Chisaki não recusaria o desafio; assumiu uma pose de luta no que o Enigma se aproximava como uma tempestade, captando bem a mensagem. O Yakuza desferiu o primeiro soco sem rodeios bem quando Enji estava próximo o suficiente, no entanto, tudo o que conseguiu foi jogar a cabeça do Enigma pro lado, pareceu mais como se tivesse recebido um tapa fraco em sua face.
Amedrontado, o Alfa observou o mais velho voltar o rosto lentamente para encará-lo com indiferença, não teve tempo para se preparar para o soco vindo do Enigma.
Chisaki foi acertado com tanta força que cambaleou e caiu sentado no chão, antes que pudesse se dar conta, Enji o agarrou pelo colarinho e o arremessou pro outro lado num golpe de karatê. Apoiando-se sobre as mãos com dificuldade, o Alfa olhou para trás para se deparar com a figura ameaçadora do Enigma se aproximando para um golpe final e entrou em pânico, reuniu tudo o que restou de suas forças e bateu em retirada, xingando em voz baixa.
Enji observou o Alfa fugir, garantindo que não voltasse mais, então voltou-se para a figura do Ômega amedrontado, tremendo ao chão e seu olhar suavizou, aproximou-se dele e se agachou para lhe oferecer a mão.
- Você está bem? - Perguntou afável, no entanto, ao notar a mão se aproximando, Izuku sobressaltou e voltou a se encolher contra a parede num impulso. - E-ei…! - Enji se afastou com as mãos erguidas, o pequeno fitou-o de relance ao tentar controlar a tremedeira que tomou conta de seu corpo.
Enji coçou a nuca e tentou aproximar-se uma vez mais, desta vez devagar e com cuidado para não assustá-lo novamente.
- Está tudo bem, Midoriya, eu não vou te machucar… consegue se levantar?
Tentando conter as lágrimas, Izuku lentamente aceitou a mão oferecida, Enji botou-o de pé com cuidado e então desviou o rosto, aparentemente incomodado com algo; o Ômega ouviu um som de tecido se remexendo enquanto encarava o chão, antes que pudesse checar o que o senhor Todoroki estava fazendo, este o envolveu com seu sobretudo.
Voltou seus grandes olhos esmeralda pro Enigma que o fitava com remorso, este logo apoiou a mão em suas costas e guiou-o de volta para a área dos funcionários.
Passando pela porta dos fundos, todos levantaram os olhos com curiosidade ao almíscar que tomou conta do lugar, então se depararam com o Enigma acompanhando o pequeno Ômega amedrontado.
- Senhor Enigma…? O que está fazendo? - A gerente foi a primeira a se pronunciar, aproximando-se da cena.
- Sinto muito, não queria chegar entrando assim. O Midoriya passou por uma situação lá fora, imagino que seja melhor para ele tirar o resto do dia de folga. - As palavras de Enji fizeram Izuku apertar a gola do sobretudo em seus ombros, segurando as lágrimas com todas as forças.
- Sim, eu ouvi, mas ainda não posso permitir que ele falte o resto do expediente. - Tsuchikawa segurou a própria cintura, indiferente.
Suas palavras fizeram Enji franzir o cenho, indignado.
- E não fez nada para tentar impedir?
A Delta engoliu em seco, as palavras duras do Enigma a desconcertaram.
- B-bem… é só que o Midoriya tem essa reputação. Eu só-
- “Reputação”? - Enji interrompeu-a, repetindo o que acaba de ouvir, ultrajado.
Naquele momento, Tsuchikawa percebeu que deveria segurar a língua se não quisesse ter maiores problemas enquanto um odor ameaçador preenchia o ar, vindo do Enigma que suspirou exalado.
- Midoriya, vá se trocar, preciso ter uma palavra com a sua chefe. - Pediu de forma tão serena para alguém no seu humor que só fez soar ainda mais apavorante.
- E-ei, espera! Você não pode-!
- Vai, Midoriya. - Enji interrompeu-a uma segunda vez, falando firmemente e calando a Delta contrariada.
Tsuchikawa só pôde assistir enquanto o Ômega passava por si a passos lentos em direção ao vestiário dos funcionários, então voltou-se para a figura do Enigma que mantinha-se de pé à sua frente como um arranha céu, esperando para que o menor estivesse fora de vista.
Uma vez no vestiário, Izuku retirou o sobretudo cinzento e colocou-o dobrado em cima de um banco enquanto buscava seu uniforme escolar dentro do armário, como Chisaki arrebentou sua calcinha, aproveitou que mantinha o uniforme de ginástica na mochila e vestiu a calça ao invés da saia plissada; a peça estava suja e fedendo após a aula de educação física daquele dia, mas pouco importava contanto que pudesse se cobrir. Enquanto abotoava a camisa social, ouviu as vozes do senhor Todoroki e de Tsuchikawa na área dos funcionários elevando-se cada vez mais até evoluírem para uma discussão.
- Você não vai demiti-lo. - A voz de Enji impôs com ênfase, falando alto, claro e firmemente.
Uma pausa se fez no que a Delta respondia; Izuku não conseguiu ouvir, mas o rumo da discussão fez seu coração apertar.
- Acha mesmo que o Midoriya quis aquilo? Ele estava sendo atacado! Onde você estava quando aconteceu?! - Retrucou Enji.
Enquanto Izuku ouvia atentamente com olhos arregalados, Tsuchikawa pareceu não responder, apenas se calou, deixando uma atmosfera desconfortável pairar no ar.
- Quero que me garanta uma coisa… vai manter a segurança e bem estar dos seus funcionários, do Midoriya principalmente enquanto estiverem trabalhando para você.
- O-o quê?! - Tsuchikawa exclamou como que indignada.
- E só vai demiti-lo se tiver um bom motivo, se não quiser que eu cuide do seu caso…
O Ômega ouviu incrédulo, as primeiras lágrimas brotavam de seus olhos em meio àquela pausa excruciante; Tsuchikawa não poderia contrariar aquela ameaça implícita, mas a espera para ouvir sua resposta já o estava deixando preocupado.
- Entendeu bem? - Enji insistiu com voz firme no que a Delta não respondeu.
- Sim… senhor Enigma. - Finalmente concordou de muito mau grado e com voz trêmula.
Izuku ofegou perplexo, paralisado no lugar; deve ter ouvido a voz de Enji falando uma última coisa para a gerente, mas disse baixo demais para poder ser ouvido do vestiário.
Vários minutos se passaram, o Ômega perdeu a noção de quanto tempo esteve ali, de repente, uma batida à porta o fez levantar os olhos pra entrada num susto.
- Midoriya…? - Ouviu a voz de Tomoko chamando do outro lado, mas não conseguiu responder. - Você ainda está aí dentro, não é…? Olha, se ouviu o que aconteceu, sinto muito, mas a lanchonete já fechou e o Enigm- senhor Todoroki está te esperando para poder te levar para casa.
Ele queria ter dito algo, mas o choque o impediu de fazê-lo, só ficou encarando a porta com olhos vidrados.
- Olha, eu deixei a chave com ele, está bem…? Não esqueça de devolver amanhã de manhã e não vá se atrasar mais. Nos vemos depois. - Com isso, a Ômega se retirou.
Talvez fosse o que Izuku precisava para voltar à realidade, finalmente conseguiu terminar de abotoar a camisa, pegou seus pertences e lentamente fez seu caminho à porta, Enji o estava aguardando do lado de fora, recostado contra a parede oposta.
- Oi, Midoriya. - Saudou ao se aproximar com cautela, como se ele fosse um animal ferido. - Pode me passar o seu endereço? Para que eu possa te levar para casa.
Izuku abriu a boca e tentou falar, no entanto, apenas resmungos incoerentes escapavam dos lábios entreabertos no que tentava conter as lágrimas. Antes que se pusesse a chorar de vez, Enji suspirou em remorso e puxou o celular do bolso da calça, entregando-o ao Ômega.
- Aqui… consegue digitar? - Indagou afável.
Izuku pegou o celular com cautela e digitou seu endereço no GPS na tela com mãos trêmulas, quando finalmente conseguiu inserir o endereço correto, devolveu o aparelho pro Enigma que checou o endereço em questão e franziu o cenho.
- Isto está certo? - Apontou para o próprio celular.
O Ômega apenas abaixou a cabeça e assentiu devagar.
Enji lançou-lhe um olhar piedoso.
- Está bem, vamos. - Anunciou ao guiar o Ômega para fora da lanchonete.
O Enigma trancou a porta ao sair e levou Izuku até um carro do outro lado da rua onde um velho senhor aguardava impacientemente do lado de fora.
- Por que tanta demora? - Indagou ríspido.
- Desculpe, tivemos alguns contratempos. - Enji respondeu suavemente.
- Claro, entrem. - O velho disse bruscamente ao abrir a porta do banco traseiro num movimento rápido.
O Enigma se uniu a Izuku no banco de trás, cedeu o GPS do próprio celular ao chofer e partiram em direção à casa do Ômega; Izuku não conseguiu se fazer dizer nada ao longo do trajeto, seguiu encarando as próprias mãos sobre o colo e segurando as lágrimas como pôde, às vezes seus olhos cruzavam com os de Enji que parecia manter o olhar atento sobre si, vigiando-o. Queria ter dito alguma coisa, “obrigado”, “desculpe o incômodo”, mas o choque foi tanto que perdeu a voz e, se dissesse algo, se debulharia em lágrimas em sua frente.
O chofer olhava curiosamente pelo espelho retrovisor vez ou outra querendo perguntar o que houve, mas percebeu que ambos acabaram de passar por um evento complicado, por isso se manteve calado para não pesar ainda mais o clima.
Chegando ao destino, o chofer estacionou frente à casa de Izuku e permaneceu no carro enquanto Enji saía do banco de trás e oferecia a mão ao pequeno Ômega que aceitou de bom grado. O Enigma acompanhou-o até a porta de sua casa e, apesar de se sentir desconfortável em tê-lo presente, Izuku não gostaria de passar por algo do tipo uma segunda vez no mesmo dia, morava num bairro perigoso afinal.
O Ômega puxou as chaves de casa da mochila e tentou inseri-las na fechadura no escuro com mãos trêmulas, foi um tempo até o senhor Todoroki segurar sua mão com um aperto firme e suave para ajudá-lo a inserir a chave corretamente; ambos trocaram olhares naquele momento mas não disseram nada, Izuku virou a chave na tranca e abriu a porta. Já estava adentrando o genkan* quando Enji o chamou.
- Ei, Midoriya. - Este remexeu os bolsos do paletó no que o Ômega aguardava-o terminar a frase; Enji puxou um cartão do bolso interno. - Toma. - Disse entregando o pedaço de papel com as duas mãos, o Ômega pegou devagar para constatar que era seu cartão de contato. - Sei que é bem próximo do meu filho, mas não quero arriscar que nada perigoso aconteça com você outra vez… se tiver algum problema, é só me chamar, está bem?
Izuku não pôde dizer nada, apenas levantou seus grandes olhos brilhantes para o homenzarrão à sua frente, este que coçou a nuca, acanhado.
- Não vai entrar? Sua mãe deve estar preocupada.
O Ômega então adentrou a própria casa com hesitação ao seu comando, queria ter agradecido de alguma forma, mas o choque ainda era recente demais para permiti-lo encontrar sua voz. Acendeu a luz do corredor ao pisar no genkan e viu Enji acenando com um sorriso suave antes de fechar a porta para ele, Izuku não conseguiu agir rápido o suficiente para retribuir o gesto.
Enquanto inseria a chave na fechadura, notou a sombra dos pés de Enji do lado de fora, então sumiu de vista após Izuku dar duas voltas na tranca. Virou-se para o interior da casa, tudo estava escuro e aparentemente vazio, sua mãe devia estar dormindo àquela hora, mas sabia que ouviria dela mais tarde.
E foi ali, na segurança de sua casa, que o Ômega desabou, caindo de joelhos e chorando tudo o que estava segurando até então.
Nota Autoral
Queria ter dado mais atc pra cena do carro, infelizmente ñ consegui transmitir mt bem essa dinâmica dos Yakuzas na vida real :,) As facções japonesas geralmente só pagam de durões em público, mas é só uma fachada p manter as aparências, geralmente eles agem como pessoas extremamente comuns e são até divertidos no off, ñ sei se deixei isso mt aparente…
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